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Brasil alcança recorde de matrículas no Ensino Superior, mas enfrenta alta evasão

Redação Bett Blog
Brasil alcança recorde de matrículas no Ensino Superior, mas enfrenta alta evasão
Foto: Freepik
País chegou a 10,23 milhões de estudantes na graduação em 2024; especialistas apontam permanência, preparação acadêmica e apoio ao aluno como pontos centrais para ampliar a conclusão dos cursos

O Brasil atingiu, em 2024, a marca de 10,2 milhões de estudantes matriculados em cursos de graduação. O número representa um recorde para o Ensino Superior brasileiro, mas o crescimento das matrículas convive com um desafio importante: garantir que esses estudantes permaneçam na universidade até a conclusão do curso.

De acordo com dados do Mapa do Ensino Superior, elaborado pelo Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp), 79,8% dos estudantes estão matriculados em instituições privadas e 20,2% na rede pública.

Apesar da expansão do acesso, a evasão ainda atinge uma parcela significativa dos universitários. Entre os estudantes da modalidade presencial, 24,8% abandonam a graduação antes de se formar. No ensino a distância (EAD), o índice chega a 41,6%.

Para especialistas, o cenário indica que o desafio do país não está apenas na ampliação do acesso à universidade, mas também na criação de condições para que os estudantes consigam avançar na formação e chegar ao diploma.

“O desafio brasileiro já não é apenas abrir a porta da universidade. É criar condições para que o estudante permaneça, aprenda e conclua sua formação”, afirma a diretora de Graduação do Insper, Priscila Claro.

A expansão das matrículas foi impulsionada principalmente pelo ensino a distância. Em 2024, cerca de 5,18 milhões de estudantes estavam matriculados em cursos EAD, o equivalente a 50,7% do total. No ensino presencial, eram 5,03 milhões, ou 49,3%. Na última década, o número de matrículas a distância cresceu 287%.

O avanço da modalidade também está relacionado ao perfil dos estudantes que optam pelo EAD. Mais de 60% dos matriculados nessa modalidade têm mais de 30 anos. No ensino presencial, 65% dos estudantes têm até 24 anos.

"São pessoas mais velhas, que já estão no mercado de trabalho e buscam fazer um curso a distância para ter uma melhoria profissional", explica o  diretor executivo do Semesp, Rodrigo Capelato.

Em geral, dizem os especialistas, a desistência é explicada por fatores como perda de renda, incapacidade de pagar mensalidades, dificuldade de conciliar estudo com outras tarefas, além do arrependimento da escolha do curso.

"90% dos alunos têm renda familiar de até três salários mínimos. Além disso, muitas vezes, há uma formação na escola básica pública deficitária. O aluno chega na graduação e não consegue acompanhar o curso", diz Capelato.

Há também motivos inerentes ao próprio ensino a distância, como a falta de contato com professores e colegas e dificuldades para organizar os estudos no ensino remoto.

"O EAD leva ao Ensino Superior quem não chegaria, mas, quando é oferecido sem interação, acompanhamento e apoio, pode transformar flexibilidade em isolamento e, consequentemente, evasão", diz Priscila Claro.

A diferença de perfil ajuda a compreender parte das dificuldades de permanência. Estudantes mais velhos frequentemente precisam conciliar a graduação com trabalho e responsabilidades familiares. Para Capelato, esse contexto aumenta a probabilidade de interrupção dos estudos.

Acesso ainda não alcança todos os jovens

Embora o número de matrículas tenha chegado ao maior patamar registrado, os dados também mostram que ainda existe espaço para ampliar o acesso ao Ensino Superior. Apenas 20% dos jovens brasileiros estão matriculados em uma universidade, segundo Capelato.

“Tem muita gente ainda para entrar. Muito mais que esse crescimento tem sido registrado”, aponta o diretor executivo do Semesp.

Nesse contexto, o EAD aparece como uma alternativa para ampliar o acesso, principalmente para estudantes que enfrentam dificuldades para frequentar uma graduação presencial. Além das mensalidades, o modelo presencial pode envolver custos adicionais com transporte, alimentação e, em alguns casos, moradia.

A expansão da modalidade, no entanto, não elimina os obstáculos relacionados à permanência. Entre os fatores associados à evasão estão perda de renda, dificuldade para pagar mensalidades, problemas para conciliar estudos com trabalho e outras responsabilidades e arrependimento em relação à escolha do curso.

O perfil socioeconômico dos universitários também é um elemento relevante. Segundo Capelato, 90% dos estudantes têm renda familiar de até três salários mínimos. Parte deles chega ao Ensino Superior após uma trajetória marcada por dificuldades na Educação Básica. “Muitas vezes, há uma formação na escola básica pública deficitária. O aluno chega na graduação e não consegue acompanhar o curso”, afirma.

No EAD, somam-se ainda desafios relacionados à própria dinâmica da modalidade, como a organização dos estudos, a necessidade de autonomia e a menor interação com professores e colegas quando não há acompanhamento adequado.

“O EAD leva ao Ensino Superior quem não chegaria, mas, quando é oferecido sem interação, acompanhamento e apoio, pode transformar flexibilidade em isolamento e, consequentemente, evasão”, avalia Priscila Claro.

Para a diretora do Insper, a questão não está apenas na modalidade escolhida, mas nas condições oferecidas ao estudante durante sua trajetória acadêmica.

Permanência começa antes da universidade

Diante dos índices de evasão, especialistas defendem que as estratégias para ampliar a conclusão dos cursos precisam envolver diferentes etapas da trajetória educacional. Para Capelato, uma das medidas fundamentais é melhorar a qualidade da Educação Básica, preparando os estudantes para os desafios acadêmicos que encontrarão na graduação.

Outra frente seria aproximar as instituições de Ensino Superior dos estudantes ainda durante o Ensino Médio. Essa relação poderia contribuir para que os jovens conhecessem melhor as possibilidades de formação e estabelecesse uma conexão mais clara entre a escola, a universidade e o mundo do trabalho.

“A instituição de Ensino Superior pode ajudar as escolas a ofertar a questão do itinerário formativo do novo Ensino Médio. Isso pode ajudar a dar mais sentido para o aluno ingressar na universidade mais fortalecido”, afirma Capelato.

A escolha do curso também aparece entre os pontos que podem contribuir para reduzir a evasão. Segundo o diretor do Semesp, parte das desistências está relacionada à falta de conhecimento sobre a carreira escolhida. “Percebemos que as desistências também estão associadas ao não conhecimento da carreira”, afirma.

Priscila também considera importante aproximar o estudante da realidade profissional. Ter contato com o mercado de trabalho e conhecer, ainda durante a formação, as atividades relacionadas à profissão pode ajudar o aluno a construir uma perspectiva sobre a carreira escolhida.

Nesse processo, a universidade também tem papel na construção de uma rede de apoio que vá além do acompanhamento acadêmico. Mentoria profissional, bolsas e auxílios para alimentação e moradia podem ser importantes para estudantes que enfrentam dificuldades financeiras e precisam conciliar a graduação com outras responsabilidades.

“Em síntese, reter não significa reduzir as exigências. Significa oferecer clareza, pertencimento, acompanhamento, apoio e condições acadêmicas e emocionais para que o estudante consiga aprender e concluir o curso”, conclui Priscila.

Políticas públicas miram qualidade e permanência

O MEC afirma que também tem reforçado a assistência estudantil como estratégia de permanência. Segundo a pasta, o orçamento da área cresceu 75%, de R$ 1,2 bilhão em 2022 para R$ 2,1 bilhões em 2026. O ministério também informou que dobrou a oferta de bolsas permanência para estudantes indígenas e quilombolas, de 8,6 mil para 17,5 mil neste ano, e reajustou o valor das bolsas de R$ 900 para R$ 1,4 mil.

Além disso, o governo afirma ter investido R$ 3,9 bilhões até 2027, por meio do Novo PAC, para a criação de dez novos campi e a realização de 421 obras de melhoria em universidades federais. Outros oito campi foram criados com recursos do MEC e das universidades. Segundo a pasta, duas novas universidades federais, a Unind e a Ufesporte, começam a operar em 2027, enquanto o orçamento das universidades federais cresceu 45% desde 2023.

Fonte da matéria: O Estado de S. Paulo

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