IA na escola exige mais do que domínio de ferramentas
A capacidade de produzir respostas rapidamente é uma das características das ferramentas de inteligência artificial (IA), mas seu uso na educação coloca outro desafio para as escolas: preparar os estudantes para questionar informações, avaliar resultados, tomar decisões e imprimir sua própria perspectiva às produções realizadas com esses recursos.
Para a cofundadora da Quark, Ana Uriarte, o desenvolvimento de competências humanas é fundamental para que os jovens estejam preparados tanto para um mercado de trabalho marcado pelo uso dessas tecnologias quanto para uma sociedade em que elas já fazem parte do cotidiano.
“Eu entendo que habilidades como pensamento crítico e inteligência emocional para lidar com todas as mudanças aceleradas que a própria IA nos traz são habilidades essenciais para esses alunos”, afirma.
A capacidade de analisar criticamente as respostas geradas pela IA também está relacionada à forma como os estudantes formulam perguntas e interagem com as ferramentas. A gerente de Soluções Educacionais da CESAR School, Jana Branco, destaca a adaptabilidade como uma competência central diante da velocidade das mudanças.
“A competência mais importante, independente do momento histórico que a gente está vivendo, é a adaptabilidade. Porque as coisas mudam muito rápido e a gente precisa preparar o estudante tanto tecnicamente quanto mentalmente, emocionalmente, para mudanças rápidas, mudanças profundas, como é o uso de IA hoje em dia”, afirma.

Jana Branco destacou a adaptabilidade como competência essencial no mundo atual. Foto: Bett Brasil.
Além da capacidade de adaptação, Jana destaca o senso crítico como elemento necessário para que os estudantes não aceitem automaticamente as respostas oferecidas pela IA.
“É desenvolver a competência para que eles perguntem, questionem o status quo, não achem que é só aquilo e pronto, mas que eles realmente façam perguntas mais inteligentes”, explica.
Autoria diante de conteúdos produzidos com IA
O uso da inteligência artificial em atividades escolares também traz questões sobre autoria e criatividade. Para Ana, incorporar a IA ao processo de produção não significa aceitar como resultado final aquilo que a ferramenta entrega. O estudante precisa acrescentar sua própria visão e adaptar o conteúdo à realidade em que está inserido.
“Eu acho que o grande ponto aqui é estimular os jovens a conseguirem colocar a visão de mundo deles em tudo que foi produzido, mesmo que seja usando IA”, afirma.
Segundo a cofundadora da Quark, uma produção feita integralmente a partir das respostas de uma IA pode acabar reproduzindo perspectivas semelhantes. Por isso, a contribuição humana está justamente na capacidade de contextualizar, selecionar e aprimorar aquilo que foi produzido.
“A grande riqueza que o ser humano pode trazer nesse processo é colocar a visão de mundo dele, que é muito única, porque as experiências de cada um de nós são muito particulares”, diz.

Para Ana, é fundamental que o estudante incorpore sua visão de mundo às respostas geradas pela IA. Foto: Bett Brasil.
Nesse sentido, Ana chama atenção para a necessidade de compreender o processo de produção para além do comando dado à ferramenta. “Produzir algo não é só escrever um prompt e esperar que aquela resposta seja o projeto final. É entender que aquilo vai precisar passar por uma adaptação e por um refinamento para que seja, de fato, condizente com a sua realidade”, explica.
IA como parte das escolhas pedagógicas
Para Jana, a discussão sobre IA também precisa ultrapassar a ideia de que ela é apenas mais uma ferramenta utilizada em sala de aula. A presença desses recursos, segundo ela, deve ser incorporada às discussões sobre escolhas pedagógicas e sobre o próprio processo de aprendizagem.
Isso não significa deixar indefinido o papel da IA nas atividades escolares. Ela avalia que professores e estudantes precisam compreender quais funções podem ser atribuídas à tecnologia e quais permanecem sob responsabilidade humana.
“Dentro da sala de aula, temos o professor, os estudantes e a IA como mais um integrante desse processo. É muito importante definir e configurar qual será o papel dela, até onde ela pode ir e quais são os seus limites”, explica”, explica.
A definição desses limites, na avaliação da especialista, não deve ser permanente. O papel da inteligência artificial pode ser revisitado conforme as experiências de uso e as necessidades pedagógicas mudam.
“É importante revisitar esse papel de tempos em tempos, para avaliar o que a IA está desenvolvendo e redefinir, dentro do contexto educacional, qual função ela deve assumir”, finaliza.
Este conteúdo tem como base a participação de Ana Uriarte, cofundadora da Quark, e Jana Branco, gerente de Soluções Educacionais da CESAR School, na Jornada Bett Nordeste 2026.
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