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Pedro Cortella: "O professor agora deve ser um criador de atritos intelectuais"

Redação Bett Blog
Pedro Cortella:
Comunicador defende que o papel do professor é provocar reflexão, desenvolver autonomia e preparar estudantes para lidar de forma crítica com um mundo cada vez mais mediado por algoritmos

A inteligência artificial vem modificando a forma como as pessoas acessam informações, produzem conhecimento e se relacionam com o aprendizado. Agora, o desafio da escola vai além da incorporação de novas tecnologias: passa por formar indivíduos capazes de pensar criticamente, preservar sua autonomia e utilizar essas ferramentas de maneira ética e consciente.

Pedro Cortella, futurista, estrategista digital e comunicador especializado em educação, inteligência artificial e comportamento, defende que o professor deixa de ser apenas um facilitador do acesso à informação para assumir um papel ainda mais estratégico: provocar questionamentos, estimular o pensamento crítico e fazer com que os estudantes se apaixonem pelo processo de aprender.

Nesta entrevista ao Bett Blog, Cortella fala sobre o impacto da inteligência artificial na educação, os desafios impostos pelo excesso de informações, as competências humanas que se tornam mais valiosas e o papel das escolas na formação de cidadãos capazes de navegar por um futuro em constante mudança.

Cortella é um dos palestrantes convidados da Jornada Bett Nordeste, que será realizada nos dias 19 e 20 de agosto, no Recife Expo Center, em Recife (PE).  A visitação é gratuita. As inscrições podem ser feitas aqui.

Bett Blog: Como sua trajetória, que reúne experiências em educação, tecnologia, comunicação e estratégia digital, influenciou a forma como você enxerga os desafios da escola diante de um mundo cada vez mais conectado e impulsionado pela inteligência artificial?

Pedro Cortella: Costumo dizer que vivemos várias vidas dentro de uma só, e foi essa polivalência de experiências que moldou minha visão sobre a inteligência artificial. A IA facilita a vida de todos, mas potencializa principalmente quem já possui repertório. Minha formação é em Jornalismo e, ao longo dos últimos 20 anos, vi a profissão mudar completamente. A forma de produzir conteúdo, consumir informação e se comunicar foi sendo reinventada, e precisei aprender novas maneiras de exercer meu trabalho.

Foi na educação que encontrei um propósito ainda maior, de gerar esperança. Percebi que, mais do que transmitir informações, educar significa transformar vidas. Essa transição aconteceu de forma natural. Inclusive, acredito que na minha história pessoal, só consegui me tornar professor depois de acumular diferentes experiências, ou seja, viver outras vidas.

Hoje, vejo que o papel do professor também mudou. Durante muito tempo se dizia que ele precisava facilitar o acesso ao conhecimento. Agora, quando toda informação está disponível na palma da mão, sua função passa a ser outra: criar atritos intelectuais. Cabe ao educador propor desafios, provocar reflexões e fazer com que os alunos desenvolvam a capacidade de pensar por conta própria. Esse é, para mim, o grande desafio da escola: deixar de ser apenas conteudista para se tornar mais reflexiva.

Bett Blog: O que mais chama sua atenção na forma como as novas gerações se relacionam com as tecnologias emergentes?

Pedro Cortella: Minha preocupação não está apenas nas novas gerações. Na educação básica, já existe uma compreensão muito maior sobre os impactos do excesso de telas e da exposição precoce ao ambiente digital. As escolas vêm avançando nesse debate, fortalecendo competências socioemocionais, o trabalho em grupo e outras experiências que vão além do uso da tecnologia.

É claro que o Brasil ainda convive com importantes desigualdades sociais, e limitar o acesso às telas continua sendo um privilégio para muitas famílias. Ainda assim, acredito que caminhamos rapidamente para um consenso de que expor crianças muito cedo a celulares, redes sociais e computadores pode trazer prejuízos ao seu desenvolvimento.

Os jovens da geração Z foram atropelados pela velocidade com que a internet evoluiu. Há alguns anos, era comum os pais sentirem certo orgulho ao ver uma criança demonstrar facilidade com a tecnologia. Hoje, a cena de uma família inteira concentrada nos celulares durante uma refeição já desperta um incômodo quase espontâneo. Isso mostra que novos comportamentos começam a surgir.

Por isso, o comportamento das novas gerações não é o que mais me preocupa. Minha atenção está voltada também para as gerações mais velhas. Millennials, Boomers e outras faixas etárias vivem conectados, sobrecarregados pelo excesso de informações e imersos em uma realidade cada vez mais fragmentada.

Ao mesmo tempo, também observo movimentos importantes de reconexão com a leitura, com a atenção e com momentos de maior reflexão. Acredito que esse seja um caminho muito promissor.

Bett Blog: Como escolas e educadores podem equilibrar o uso da inteligência artificial sem abrir mão de experiências de aprendizagem que desenvolvam curiosidade, reflexão e construção do conhecimento?

Pedro Cortella: Como educador, acredito que nós, professores, somos agentes transformadores do pensamento crítico. E, hoje, desenvolver pensamento crítico significa criar atritos. Se antes o professor era visto como alguém que facilitava o acesso ao conhecimento, agora nosso papel é propor desafios, fazer os alunos pensarem com a própria cabeça.

Eu procuro fazer com que meus alunos se apaixonem pelo processo, não pelo resultado. Vivemos em uma sociedade muito orientada pela entrega, pela performance e pelo produto final, uma lógica herdada da Revolução Industrial e daquilo que Paulo Freire chamava de educação bancária. Mas este é justamente o momento de construir autonomia em um mundo em que a inteligência artificial e a tecnologia tornam tudo cada vez mais fácil.

O grande desafio é despertar o prazer pelo processo de aprender. Mais importante do que o conteúdo ou a resposta pronta é o caminho percorrido até ela. Esse sempre foi o papel mais difícil da educação: fazer com que as pessoas não desenvolvam aversão ao aprendizado, mas se apaixonem pelo conhecimento.

Acredito que a inteligência artificial tornará o ensino mais acessível, mais personalizado e até mais lúdico. E, justamente por isso, o bom professor terá ainda mais espaço para fazer a diferença.

Assista à entrevista do Pedro Cortella ao Conexão Bett:

Bett Blog: Quais competências humanas se tornam ainda mais importantes em um contexto de excesso de informações e estímulos constantes?

Pedro Cortella: Desde o lançamento do ChatGPT, no fim de 2022, mergulhei ainda mais nos estudos sobre inteligência artificial e futurismo. Em determinado momento, comecei a me perguntar qual seria, afinal, o espaço do ser humano em um mundo onde a IA parece capaz de fazer quase tudo. Essa inquietação também me levou a criar o podcast Inteligência Orgânica, onde converso com pessoas (presencialmente) sobre o futuro da humanidade frente à inteligência artificial.

Hoje acredito que o caminho é desenvolver justamente essa inteligência orgânica. Recentemente, tive contato com um framework elaborado pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) que identifica cinco competências essencialmente humanas e que dificilmente poderão ser substituídas pela inteligência artificial.

A primeira é a empatia, nossa capacidade de compreender o outro. Depois vem a presença, que está ligada ao foco e à atenção plena. A terceira é a criatividade, porque máquinas produzem, mas seres humanos criam. A quarta é a opinião, entendida como conhecimento aprofundado e reflexão, e não como a necessidade de opinar sobre tudo. Por fim, há a esperança, no sentido defendido por Paulo Freire: a verdadeira esperança vem do verbo esperançar, e não do verbo esperar

Bett Blog: Qual é a principal mensagem que você pretende compartilhar com educadores e gestores durante a Jornada Bett Nordeste?

Pedro Cortella: Será uma honra participar pela primeira vez da Jornada Bett Nordeste. Tenho um carinho muito grande pelo público da educação. Sou filho de professor e acredito que os educadores são os verdadeiros influenciadores da sociedade.

A principal mensagem que quero compartilhar é que precisamos aprender a gostar da mudança. Sei que isso parece contraintuitivo. O ser humano naturalmente busca a zona de conforto, mas vivemos um momento de inovação exponencial, em que as mudanças são inevitáveis.

Cada mudança traz novas oportunidades de aprender, crescer e desenvolver nossa inteligência orgânica. Gosto de pensar que devemos nos apaixonar a olhar pela janela ao longo da viagem, e não apenas pelo destino final.

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