Além do verde: especialistas defendem educação ambiental mais próxima da realidade e integrada ao cotidiano escolar
Muito além da preservação ambiental, a sustentabilidade envolve a construção de modelos de desenvolvimento capazes de equilibrar crescimento econômico, responsabilidade social e proteção dos recursos naturais.
Em tempos de mudanças climáticas, crises ambientais e desigualdades sociais cada vez mais evidentes, especialistas defendem que a educação tem papel central na formação de cidadãos mais conscientes e preparados para lidar com os desafios do futuro.
Levar o tema para dentro das escolas, no entanto, ainda é um dos grandes desafios da educação brasileira. Apesar de o país possuir legislações, programas nacionais e diretrizes curriculares voltadas à educação ambiental, a aplicação prática do tema no ambiente escolar ainda ocorre de maneira desigual e, muitas vezes, distante da realidade dos estudantes.
O assunto foi debatido pelo diretor da Reconectta e do Movimento Escolas pelo Clima, Edson Grandisoli, e o cofundador e diretor da Virada Sustentável, André Palhano, durante uma roda de conversa sobre sustentabilidade e educação durante no Congresso de Educação Básica da Bett Brasil.
Grandisoli destacou que o Brasil possui uma trajetória importante na construção de políticas públicas voltadas à educação ambiental, incluindo marcos como o Tratado de Educação Ambiental de 1992, o Programa Nacional de Educação Ambiental (ProNEA), criado em 2005, e as Diretrizes Curriculares para Educação Ambiental, estabelecidas em 2012.
Segundo o diretor, a legislação brasileira oferece base suficiente para que a sustentabilidade seja trabalhada de maneira estruturada nas instituições de ensino. Ainda assim, os dados mostram que o tema permanece ausente em grande parte das escolas. “Temos legislação, temos diretrizes e políticas públicas, mas ainda enfrentamos dificuldade em transformar isso prático e atraente dentro das escolas”, afirmou.

Edson Grandisoli explicou a importância de tratar questões ambientais do cotidiano escolar. Foto: Bett Brasil.
Ele também apresentou dados do Censo Escolar 2024 onde concluiu-se que das cerca de 179 mil escolas analisadas no país, mais de 59 mil não desenvolveram ações ligadas à sustentabilidade e educação ambiental ao longo do ano letivo.
Para o especialista, parte desse problema está ligada à falta de pertencimento e de compreensão coletiva sobre questões ambientais, inclusive em relação ao próprio território brasileiro. “Nós, brasileiros, desconhecemos mais de 50% do nosso território, que é a Amazônia. Falta pensamento coletivo quando falamos sobre sustentabilidade, não é possível discutir esse tema de forma individual”, destacou.
O diretor também explicou que o Movimento Escolas pelo Clima, criado em 2019, busca justamente aproximar o debate ambiental do cotidiano escolar e ampliar o engajamento de estudantes e educadores em torno das mudanças climáticas e da preservação ambiental.
Na sequência, Palhano trouxe uma visão ampliada sobre o conceito. Jornalista de formação, ele explicou que o tema não pode ser tratado apenas sob a ótica ecológica, mas também como questão social, econômica e cultural. “Sustentabilidade não envolve apenas meio ambiente. Ela também está ligada ao desenvolvimento econômico, à inclusão social e à forma como nos relacionamos em sociedade”, afirmou.

André Palhano abordou como a Virada Sustentável ajuda a aproximar jovens do debate ambiental. Foto: Bett Brasil.
Ele contou que a Virada Sustentável surgiu inspirada na Virada Cultural de São Paulo, utilizando manifestações artísticas, culturais e ações urbanas como ferramenta de conscientização e engajamento da população.
Segundo ele, um dos principais desafios atuais é aproximar o debate ambiental da realidade dos jovens, utilizando referências mais próximas do cotidiano brasileiro. “Precisamos trazer o tema mais para a realidade dos jovens. Por exemplo, o urso polar não faz parte da fauna do Brasil, mas muitas vezes continuamos usando esse exemplo para falar de mudanças climáticas”, ressaltou.
Durante o debate, os especialistas também chamaram atenção para pesquisas que apontam baixo interesse dos jovens pelo tema da sustentabilidade, o que reforça a necessidade de criar estratégias educacionais mais conectadas à realidade social, cultural e territorial dos estudantes.
Para os participantes, a educação ambiental precisa deixar de ser tratada apenas como conteúdo complementar e passar a ocupar espaço permanente na formação escolar, estimulando pensamento crítico, responsabilidade coletiva e participação social.
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