Alfabetização midiática: como preparar os estudantes para avaliar informações na era da IA?
Identificar a origem de uma informação, verificar a confiabilidade de uma fonte e comparar diferentes versões de um mesmo fato são habilidades centrais para a alfabetização midiática. Com a expansão do uso da inteligência artificial (IA) na produção e no acesso a conteúdos, o desafio das escolas é preparar os estudantes para analisar criticamente o que recebem, reconhecer possíveis imprecisões e compreender como as tecnologias influenciam sua percepção da realidade.
A alfabetização midiática faz parte do subtema “Coragem para compreender”, um dos quatro eixos de conteúdo da 32ª edição da Bett Brasil, que terá como tema central “Coragem para transformar. A ação começa em cada um. A transformação acontece entre todos”. A proposta do eixo é discutir como interpretar, selecionar, relacionar e produzir conhecimento em um ambiente de ampla circulação de informações. Entre os assuntos previstos estão inteligência artificial, cultura digital, ciência, pesquisa, dados, evidências e pensamento crítico.
Para o diretor da ZeitGeist, consultor da UNESCO na França e no Uruguai em educação midiática e conselheiro da Bett Brasil, Alexandre Sayad, compreender a realidade exige reconhecer a complexidade das relações que constituem o mundo contemporâneo. Essa perspectiva, segundo ele, deve orientar o trabalho das escolas, especialmente diante dos desafios relacionados à informação e às tecnologias digitais.
“Não consigo pensar na educação contemporânea sem retomar o conceito de ‘complexidade’, que o filósofo francês Edgar Morin ‘importou’ do campo da Matemática para o campo das Ciências Sociais, como uma condição do mundo contemporâneo. Tudo no mundo atual está inter-relacionado e é interdependente”, afirma.
Sayad recorre às questões climáticas para exemplificar essa interdependência. O tema, explica, não pode ser compreendido isoladamente, pois envolve também desigualdade social, educação e economia. A mesma lógica se aplica a outros fenômenos sociais, que exigem a capacidade de estabelecer relações entre diferentes informações e perspectivas.
Nesse contexto, o diretor da ZeitGeist considera que a escola precisa reforçar sua função como espaço de construção de significado.
“Na prática, a educação contemporânea não pode se abster de debater o contraditório e encarar a realidade com a devida complexidade. Deve-se evitar a simplificação e o ‘solucionismo’ — uma tendência que me preocupa. O pensamento crítico é uma habilidade não inata: deve ser desenvolvida com repertório, mentoria e ação, inclusive na escola”, destaca.
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Ele explica que a “coragem" presente no tema central da Bett Brasil 2027, foi inspirada na obra Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. No romance, o protagonista Riobaldo acredita que a coragem é a capacidade fundamental para encarar a vida.
“Pensando no universo da educação, cabe a nós resistirmos às tentações simplistas e encararmos a dificuldade em compreender o mundo como ele é. Dá muito trabalho e exige muito de educadores e gestores. Mas os caminhos mais curtos são insuficientes e perigosos. A escola é o espaço ideal para construirmos sentido, compreensão e vivermos o tempo “kairos”, que é o tempo da fruição e da crítica”, ressalta.
Alfabetização midiática diante da inteligência artificial
Um recorte do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2025, divulgado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), apontou que 48% dos estudantes brasileiros utilizam chatbots de IA ao menos uma vez por semana para aprender, contra 46% na média dos países da OCDE.
Para Sayad, a escola precisa compreender a IA como uma tecnologia de propósito geral, cuja influência não se restringe a uma área do conhecimento ou a uma disciplina específica. Por isso, abordá-la apenas nas aulas de Linguagens, Matemática ou mesmo em atividades de alfabetização midiática é insuficiente.
Entre os caminhos apontados pelo especialista está a criação de um sistema de governança da IA nas escolas. A proposta, segundo ele, não se limita à elaboração de regras para o uso das ferramentas, mas envolve estabelecer uma estrutura colaborativa para proteger os direitos dos estudantes, desenvolver competências entre os profissionais da educação e identificar formas de potencializar a aprendizagem.
“É um sistema colaborativo, intencional e propositivo que lida com uma questão real do cotidiano”, explica Sayad, que pesquisa o tema em seu doutorado na Universidade Autônoma de Barcelona (UAB).

Segundo Sayad, a educação midiática precisa integrar o currículo escolar. Foto: Reprodução.
Outro aspecto que complementa a alfabetização midiática, segundo Sayad, é a valorização da escola como espaço de convivência e construção de vínculos com a comunidade. Para ele, a formação dos estudantes também depende do contato com a cultura local e com manifestações artísticas, como teatro, cinema, literatura e artes plásticas.
Sayad considera que a arte contribui para ampliar as formas de perceber e interpretar o mundo, oferecendo experiências que não se limitam à lógica da automação. Essa dimensão humana, argumenta, pode funcionar como contraponto à mediação algorítmica, ao aproximar os estudantes de diferentes sensibilidades, contextos e formas de expressão.
Como avaliar a qualidade das informações
A alfabetização midiática também envolve ensinar os estudantes a investigar a origem dos conteúdos que consomem, compreender os caminhos percorridos por uma informação e reconhecer os interesses envolvidos em sua produção e disseminação.
De acordo com Sayad, compreender a origem e as mediações de uma informação é essencial para avaliar sua confiabilidade. No caso da IA, isso inclui conhecer, ainda que de maneira básica, o funcionamento desses sistemas, que utilizam modelos estatísticos e probabilidades para gerar respostas a partir de grandes volumes de dados.
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Por isso, a análise de um conteúdo não deve se limitar à aparência de precisão ou à forma convincente como uma resposta é apresentada. É necessário investigar sua procedência, verificar os fatos e comparar diferentes versões antes de considerar uma informação confiável.
“Quem gerou a informação que consumimos? Por que sistemas ela passou? Qual o interesse de quem gerou e quem a repassou? Há como checar a precisão dos fatos? Há como comparar versões? Essas perguntas são fundamentais e um dever de toda a escola auxiliar os estudantes a respondê-las”, afirma.
Para Sayad, essas habilidades precisam ser desenvolvidas de maneira contínua, e não restritas a uma disciplina ou a poucas áreas do conhecimento. A educação midiática e o letramento em inteligência artificial devem fazer parte do currículo, envolvendo diferentes componentes curriculares e situações de aprendizagem.
Compreender, nessa perspectiva, significa reconhecer que as informações não circulam de forma neutra e que as tecnologias utilizadas para produzi-las e distribuí-las também influenciam a maneira como o mundo é percebido. Enfrentar essa complexidade exige tempo, formação e disposição para questionar explicações simplistas, uma tarefa que impulsiona o pensamento crítico no centro da educação.
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