Bett Brasil 2026 mostra por que o futuro da educação ainda é humano
O segundo dia da Bett Brasil 2026, maior evento de Inovação e Tecnologia para a Educação da América Latina, trouxe uma mensagem clara para educadores, gestores e especialistas: em meio ao avanço acelerado da inteligência artificial, o fator humano nunca foi tão decisivo para o futuro da educação.
Um dos momentos mais relevantes da programação foi o lançamento do relatório da OCDE - Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Agora, o Brasil passa a ter acesso gratuito, em português, ao principal documento internacional sobre inteligência artificial generativa na educação. Durante o Summit IA na Educação, o Instituto Salto apresentou a tradução integral da OCDE Digital Education Outlook 2026: Exploring Effective Uses of Generative AI in Education. A obra reúne em 13 capítulos com evidências comparadas, estudos de caso e entrevistas com pesquisadores e gestores de diferentes países sobre o uso da IA generativa na educação.
A apresentação do material foi conduzida por Rafael Parente, Diretor-Executivo do Instituto Salto, e Lucia Dellagnelo, Diretora-Adjunta de Educação e Habilidades da OCDE e doutora por Harvard.
“A escola brasileira já está atravessada pela inteligência artificial. O que faltava era uma base pública, rigorosa e acessível, em português, para orientar decisões responsáveis de gestores e lideranças educacionais”, destaca Parente.

Rafael Parente durante lançamento de relatório sobre IA na educação. Foto: Bett Brasil.
Lucia Dellagnelo destacou que o uso de ferramentas de IA generativa, por si só, não garante aprendizagem — e pode, inclusive, comprometer a compreensão quando utilizado sem intencionalidade pedagógica. “Utilizar IA generativa para realizar tarefas não é o mesmo que aprender com ela. O ganho educacional acontece quando há mediação qualificada e desenho pedagógico adequado, conduzido pelo professor”, explica.
Segundo ela, ferramentas de uso geral podem trazer oportunidades importantes, como abordagens mais conversacionais, flexíveis e adaptáveis a diferentes disciplinas. No entanto, ainda apresentam desafios relevantes, como erros ocasionais (as chamadas “alucinações”), e a necessidade de tornar as experiências mais engajadoras para promover aprendizagem real.
Entre as principais lições destacadas pelo relatório, está a importância de manter o professor no centro do processo educativo. “Algoritmos podem sugerir caminhos, mas são os educadores que precisam decidir. Nenhum plano de aula com IA substitui o julgamento profissional docente”, reforça Lúcia.

Lucia Dellagnelo reforçou a importância do professor no centro do processo educativo. Foto: Bett Brasil.
A obra está disponível sob licença aberta CC BY 4.0, e o download pode ser feito por meio deste link. A ideia do estudo é que a partir dele sejam criadas políticas públicas para o uso responsável da IA, o investimento na formação de professores, o avanço em regulação para proteção de dados e o estímulo à pesquisa sobre os impactos da tecnologia na aprendizagem.
“Estamos entrando em uma fase de ‘educação aumentada por IA’. Isso significa que a tecnologia deixa de ser acessório e passa a integrar a estrutura do ensino, exigindo revisão de currículo, avaliação e práticas pedagógicas”, completou Rafael Parente.
Já na plenária principal do Congresso de Educação Básica, o historiador Leandro Karnal e Leo Chaves, fundador da EAI Educa, deslocaram o olhar para outro ponto essencial: as competências socioemocionais. Em um cenário de transformação constante, o futuro vai ser de pessoas capazes de se comunicar, se adaptar e aprender.
“Quando eu recuso a tecnologia, eu recuso a ferramenta. Recusar a IA é rejeitar uma ferramenta poderosa de auxílio e inteligência. É preciso se reinventar. Esse é o desafio neste momento. Não é a IA que vai nos salvar, vão ser os professores. Eles são a maior tecnologia educacional que temos”, declarou Leandro Karnal.
“O poder de liderança e influência que os professores têm de exercer na sociedade é insubstituível”, complementou Leo Chaves.

Karnal e Leo Chaves abordaram questões socioemocionais em painel na Bett Brasil. Foto: Bett Brasil.
Já no Fórum de Gestores, a palestra “Entre Likes e Leis” trouxe à tona um dos temas mais sensíveis da atualidade: os impactos da hiperconectividade na adolescência. Participaram Caio Lo Bianco, CEO do LIV, e a juíza Vanessa Cavalieri, que discutiram o uso excessivo de telas, cidadania digital, legislação e os efeitos das plataformas na saúde mental dos jovens, incluindo as novas diretrizes previstas na Lei nº 15.211/2025, que estabelece limites para atuação das plataformas digitais com menores.
“A gente está diante de um cenário preocupante, em que a exposição digital começa cada vez mais cedo e com riscos concretos. Hoje, já vemos o aumento de conteúdos sensíveis, como o compartilhamento de imagens íntimas e até a geração de nudes falsos por inteligência artificial — uma pesquisa do Unicef estima que 1,2 milhão de crianças foram impactadas por esse tipo de situação em 2025. Isso reforça a importância de pais e responsáveis estarem atentos e próximos do que os filhos consomem e publicam”, destacou Caio Lo Bianco.
Vanessa Cavalieri chamou atenção para a necessidade de combinar regulação com educação. “A legislação traz avanços importantes ao restringir práticas como publicidade direcionada a menores, notificações com apelo emocional e o acesso irrestrito às redes sociais. Mas isso não resolve tudo. Estamos falando de um fenômeno que também precisa ser enfrentado dentro das escolas, com formação, diálogo e construção de uma cultura digital mais consciente, que envolva estudantes, famílias e o próprio Estado”, pontuou.

Caio Lo Bianco e Vanessa Cavalieri debateram os impactos da hiperconectividade na adolescência. Foto: Bett Brasil.
A discussão também avançou para um tema que tem preocupado educadores, famílias e formuladores de políticas públicas: o crescimento das apostas online entre jovens, as famosas Bets. Os especialistas destacaram que a lógica de gamificação dessas plataformas, associada à sensação de recompensa imediata, tem ampliado o risco de dependência, um comportamento que já é classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como transtorno relacionado a jogos.
“Existe uma camada de ludicidade nesses ambientes que mascara o risco. Para muitos jovens, a aposta começa como entretenimento, mas rapidamente pode se transformar em um comportamento compulsivo, com impactos diretos na vida pessoal, acadêmica e financeira”, alertou Vanessa Cavalieri.
Dados recentes reforçam a dimensão do problema. Segundo levantamento da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), 34% dos jovens entre 18 e 35 anos que planejavam ingressar no ensino superior em 2025 adiaram a matrícula por conta de gastos com apostas — o que representa quase 1 milhão de pessoas fora das universidades.
Encerrando os destaques do dia, o empresário Walter Longo trouxe uma reflexão provocadora sobre o avanço da inteligência artificial durante uma roda de conversa. Em uma abordagem mais humanística e menos alarmista, ele convidou o público a olhar para a tecnologia não como ameaça, mas como expansão das capacidades humanas.
“A inteligência artificial não é o fim da inteligência humana, é o começo da nossa versão ampliada. O desafio não é competir com a máquina, mas entender como ela pode potencializar aquilo que nos torna humanos, por meio da nossa criatividade, nossa ética e nossa capacidade de fazer perguntas melhores”, afirmou.

Walter Longo refletiu sobre o avanço da IA no contexto atual. Foto: Bett Brasil.
Para Longo, o momento exige menos medo e mais lucidez. Segundo ele, o papel da educação é justamente preparar indivíduos para esse novo cenário, em que tecnologia e pensamento crítico caminham juntos. “A revolução já começou, e ela pede uma mudança de mentalidade. Não se trata de substituir pessoas, mas de ampliar possibilidades, permitindo, necessariamente, pela forma como educamos e pensamos”, concluiu.
Além da programação que deve atingir mais de 144 horas de conteúdo, a Bett Brasil 2026 está reunindo durante estes estes dias mais de 330 marcas nacionais e internacionais em sua área de exposição, apresentando soluções, tecnologias e serviços para todos os níveis de ensino.
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