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31 mar. 2026

Como a inteligência artificial redefine o papel do professor no ensino superior?

Redação Bett Blog
Como a inteligência artificial redefine o papel do professor no ensino superior?
Foto: Freepik
Ascensão da IA exige novos modelos de ensino, avaliação e formação docente, com a transformação do professor em mentor, curador e arquiteto de ecossistemas de aprendizagem

A rápida expansão da inteligência artificial (IA) tem provocado mudanças profundas na educação superior, exigindo que instituições e docentes repensem práticas pedagógicas, modelos de avaliação e o próprio papel do professor.

Para o integrante do Conselho Estadual de Educação de Minas Gerais e primeiro pró-reitor de Educação a Distância do Brasil, Luciano Sathler, a popularização da Inteligência Artificial Generativa, impulsionada por ferramentas lançadas ao público nos últimos anos, trouxe para a educação formal um verdadeiro “conflito existencial”.

Segundo ele, o uso intensivo dessas tecnologias pode estimular a chamada descarga cognitiva, quando parte do esforço intelectual é delegada às máquinas. “A resposta está sempre pronta, o que reduz gradualmente a capacidade de pensar para quem se acomoda”, afirma. Nesse contexto, aprender e ensinar tornam-se tarefas ainda mais desafiadoras.

Para o especialista, o futuro da formação universitária depende da capacidade de integrar tecnologia e pensamento humano de forma equilibrada. O uso da inteligência artificial, afirma, deve ocorrer em regime de coautoria: o estudante precisa ser capaz de dialogar com as ferramentas digitais sem abrir mão da autonomia intelectual e da criatividade.

Luciano Sathler

Luciano Sathler é um dos palestrantes da Bett Brasil 2026. Foto: Arquivo pessoal.

“Somente quem souber usar a IA em coautoria, sem perder o toque humano e agregando algo que a tecnologia não conseguiu mapear, continuará a aprender e seguir em uma legítima jornada de desenvolvimento pessoal”, observa.

Na visão de Dr. Aldo Henrique, analista de sistemas sênior da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e professor universitário na área de computação, a transformação docente já é visível na prática. Para ele, a inteligência artificial deslocou o docente da função de transmissor de conteúdo para a de “arquiteto de ecossistemas de aprendizagem”.

“Nas disciplinas de computação que leciono, o foco deixou de ser a sintaxe básica ou a escrita de código, uma vez que essas tarefas operacionais a IA já executa com precisão. Hoje, meu trabalho é concentrado em ensinar os alunos a pensar de forma arquitetural e sistêmica, preparando-os para resolver problemas complexos que vão além do que um comando pode gerar sem supervisão crítica”, explica.

Dr. Aldo relata que, em suas aulas, a integração de modelos de linguagem permite elevar o nível dos projetos desenvolvidos pelos estudantes, incentivando soluções mais sofisticadas e próximas de desafios reais do mercado. A tecnologia também funciona como um “monitor virtual”, acompanhando o progresso dos alunos e liberando mais tempo para a mentoria individualizada.

“Essa mudança exige que o professor seja o primeiro a dominar essas ferramentas, servindo como exemplo de como a teoria se transforma em produção de forma ética e eficiente”, afirma.

Avaliação da aprendizagem

O impacto da IA também passa diretamente para os modelos de avaliação acadêmica. “Professores que mantiveram o mesmo plano de avaliação da aprendizagem de 2023 para cá estão corrigindo trabalhos preparados total ou parcialmente com uso de IA Generativa, sem realmente saber se o aluno aprendeu ou não”, destaca Sathler.

Para enfrentar esse desafio é necessário repensar a avaliação da aprendizagem, ele defende que as instituições educacionais adotem metodologias ativas e processos de avaliação contínua, que privilegiem a aprendizagem significativa e ampliem o protagonismo dos estudantes.

“É indispensável manter um programa permanente de formação nas universidades, que seja baseado em comunidades de aprendizagem e que apoie efetivamente os docentes no seu dia a dia. Algo que é possível com baixos investimentos em conteúdo e exige mais liderança focada na humanização das relações e na estruturação de ambientes marcados pelo cuidado e confiança”, avalia.

Aldo Henrique

Dr. Aldo Henrique está confirmado na Bett Brasil 2026. Foto: Arquivo pessoal.

Por experiência própria, no campo da avaliação, Dr. Aldo defende um modelo centrado no processo de aprendizagem. Uma das estratégias utilizadas em suas disciplinas é o uso de um chatbot socrático, programado para estimular o raciocínio dos estudantes por meio de perguntas, em vez de fornecer respostas prontas.

Além disso, a validação do conhecimento ocorre por meio de defesas de projeto e entrevistas técnicas. “O peso maior da nota recai sobre a capacidade do aluno de justificar as decisões de arquitetura e a lógica por trás da solução, tornando irrelevante se houve auxílio de IA na escrita, desde que o domínio intelectual seja comprovado”, afirma. Para consolidar os conceitos fundamentais, provas escritas tradicionais também continuam sendo utilizadas.

Ensino superior brasileiro está preparado?

Apesar dos avanços, os especialistas avaliam que o ensino superior brasileiro ainda atravessa uma fase inicial de adaptação. Segundo Sathler, o país vive um momento de debates regulatórios, com discussões em andamento sobre normas e legislações relacionadas ao uso da inteligência artificial generativa.

Entre os temas que preocupam gestores e educadores estão questões de propriedade intelectual, privacidade de dados, integridade acadêmica e impactos da tecnologia no mundo do trabalho. Nesse contexto, ele defende que universidades estabeleçam políticas institucionais para orientar o uso dessas ferramentas, criando sistemas de governança capazes de acompanhar as diferentes aplicações de inteligência artificial presentes no cotidiano acadêmico.

Já o Dr. Aldo destaca que o maior desafio não está na tecnologia em si, mas na mudança cultural necessária para integrá-la ao processo educacional. “Enquanto não houver um letramento em IA generalizado, que permita enxergar essas ferramentas como aceleradoras de produtividade e não apenas como ameaça, o sistema educacional continuará operando abaixo do seu potencial de transformação”, finaliza.

A discussão sobre o futuro da docência e da formação universitária estará no centro do debate durante o Fórum Ahead CIEE - Ensino Superior, realizado na Bett Brasil, de 5 a 8 de maio, no Expo Center Norte. Luciano Sathler e o Dr. Aldo Henrique participam do painel “IA, Docência e Futuro: o ensino superior na era das inteligências integradas”, no dia 6 de maio, às 13h. Para realizar a sua inscrição, clique aqui.

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