Como o futurismo pode ajudar jovens a construir futuros sustentáveis?
Em um mundo marcado por transformações rápidas, incertezas e crises simultâneas, pensar o futuro deixou de ser um exercício abstrato para se tornar uma habilidade essencial. Uma das futuristas mais reconhecidas da América Latina, Rosa Alegria falou sobre esse desafio em entrevista ao Conexão Bett.
Diretora-geral da Teach the Future Brasil, iniciativa ligada ao movimento global Teach the Future, ela avaliou como o ensino pode contribuir para a construção de futuros mais sustentáveis, desejáveis e conscientes.
Segundo Rosa, o futurismo é uma disciplina interdisciplinar que analisa mudanças em curso e possíveis cenários para orientar decisões no presente. Mais do que prever o que virá, trata-se de compreender tendências, identificar padrões e utilizar ferramentas que permitam às pessoas participar ativamente da construção do amanhã.
“É uma ciência de estudos do futuro que pode ser aplicada à gestão e à educação que exige pensamento sistêmico para entender para onde o mundo está caminhando”, explica. “Não basta observar as transformações: precisamos nos empoderar de conhecimento e ferramentas para criar os futuros que desejamos”.
Esse campo de conhecimento ganhou relevância internacional nas últimas décadas. Em 2012, a UNESCO criou o programa Futures Literacy, ou alfabetização em futuros, reconhecendo a capacidade de imaginar e refletir sobre o futuro como uma competência fundamental para indivíduos e sociedades. A proposta é estimular a compreensão de como as imagens que projetamos sobre o amanhã influenciam decisões e comportamentos no presente.
Para Rosa Alegria, essa habilidade tornou-se ainda mais urgente diante do ritmo das mudanças contemporâneas. Se no passado era possível planejar o futuro com base em processos relativamente lineares, hoje o cenário é marcado por aceleração tecnológica, transformações sociais rápidas e crises globais interligadas. “Entramos em um período de grande aceleração, principalmente após a pandemia de Covid-19. As mudanças deixaram de ser lineares e contínuas. Elas são complexas, às vezes caóticas e descontínuas”, afirma.
Nesse contexto, olhar apenas para o passado não é suficiente para resolver os desafios atuais. Ela argumenta que, embora a história ofereça experiências e aprendizados importantes, a inovação real nasce no território do que ainda não existe. “É no horizonte da imaginação que criamos algo novo. Se ficarmos presos apenas ao que já aconteceu, não encontraremos respostas para os problemas do presente”, destaca.
Assista ao episódio completo:
Habilidades para a construção de futuros
Uma das principais contribuições da nova educação nesse processo de ensino do futuro, segundo a futurista, é desenvolver nos estudantes competências que os ajudem a imaginar e construir futuros melhores. Entre elas, três formas de pensamento são consideradas essenciais: o crítico, o criativo e o antecipatório.
O pensamento crítico permite questionar narrativas estabelecidas e avaliar quais caminhos realmente contribuem para um futuro mais justo e sustentável. Já o pensamento criativo está diretamente ligado à imaginação — capacidade exclusivamente humana de conceber imagens mentais do que ainda não existe e transformá-las em ideias e soluções. “O futuro é uma imagem mental que nasce na sua mente e vai se transformar em alguma ideia”, diz.
Por fim, o pensamento antecipatório envolve a habilidade de analisar tendências e refletir sobre possíveis consequências das decisões tomadas hoje.
Apesar de ainda pouco presente nas escolas, o ensino do futuro já começa a ganhar espaço em algumas iniciativas educacionais no país. “No Brasil, posso citar três exemplos de escolas que já têm futuro como uma matéria no currículo de aulas. Temos a Estilo de Aprender e a FourC Bilingual localizadas em São Paulo, e a Marly Cury, no Rio de Janeiro”, ressalta.
Estudo “Da Futurofobia à Futurotopia”
A discussão também dialoga com um desafio revelado por pesquisas recentes. Um estudo realizado pela Teach the Future Brasil com 689 jovens entre 18 e 28 anos de diferentes regiões do Brasil, etnias, gêneros e realidades econômicas apontou que 62% deles sentem medo do próprio futuro.
Para Rosa, esse dado revela uma mudança preocupante na forma como as novas gerações enxergam o amanhã.
“Para muitos jovens, o futuro deixou de ser um espaço de desejo e passou a ser um lugar de pressão e ameaça”, observa. Segundo ela, esse sentimento está relacionado a fatores como desigualdade social, instabilidade global e a sensação de cobrança constante por desempenho e produtividade.
Ao mesmo tempo, a pesquisa indica que os jovens desejam participar mais ativamente das decisões que impactam seu futuro. Para a futurista, ampliar o diálogo intergeracional e incluir os estudantes nas discussões sobre o amanhã é fundamental para fortalecer o protagonismo das novas gerações.
Rosa Alegria na Bett Brasil 2026
Rosa é uma das palestrantes confirmadas da 31ª edição da Bett Brasil, maior evento de Inovação e Tecnologia para a Educação da América Latina, que acontece de 5 a 8 de maio, no Expo Center Norte, em São Paulo. Ela estará no painel “O papel da escola na construção de futuros sustentáveis”, no dia 6 de maio, às 13h, no auditório da Educação Básica. As inscrições podem ser feitas aqui.
“A pergunta central que os educadores e gestores escolares precisam fazer é: qual futuro estamos ajudando a ensinar? Mesmo quando não falamos explicitamente sobre o futuro, estamos transmitindo alguma visão dele e a escola pode nutrir esperança, inspiração e senso de propósito ou reforçar medo e insegurança”, afirma.
Para a especialista, preparar estudantes para o amanhã não depende necessariamente de grandes investimentos ou tecnologias sofisticadas. Muitas vezes, começa com algo mais simples: abrir espaço para perguntas, escuta, imaginação e reflexão sobre o papel de cada indivíduo na construção de um mundo melhor. “Se queremos que os alunos estejam preparados para o amanhã, precisamos começar a ensinar o futuro hoje”, conclui Rosa.
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