Creche como etapa do aprendizado: o impacto da educação infantil nos primeiros anos de vida
A alfabetização começa muito antes da criança aprender oficialmente a ler e escrever. O desenvolvimento da linguagem, da atenção, da capacidade de concentração e das habilidades socioemocionais nos primeiros anos de vida é, segundo especialistas, um dos pilares mais importantes para o desempenho escolar ao longo da vida acadêmica.
Para aprofundar esse tema, a Bett Brasil trouxe ao auditório de Educação Pública a diretora pedagógica da King Consultoria Educacional e Petit Kids Cultural Center, Fernanda King, e Márcia Bernardes, membro do Conselho Estadual de Educação do Estado de São Paulo.
As palestrantes debateram os impactos da educação infantil, especialmente a pública, na formação das crianças e defenderam a creche como uma etapa essencial para o desenvolvimento cognitivo, emocional e para a construção das bases da alfabetização.
Fernanda King compartilhou parte de sua trajetória pessoal e profissional, lembrando que veio da escola pública e do ensino técnico. Para a especialista, a transformação da educação brasileira passa necessariamente pelo fortalecimento do ensino público desde os primeiros anos da infância. “Se queremos realmente fazer algo pela educação brasileira, deve ser na educação pública”, afirmou.
A diretora pedagógica apresentou dados do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), que apontam que cerca de 29% da população brasileira entre 15 e 64 anos é considerada analfabeta funcional. Segundo ela, os desafios da aprendizagem vêm se tornando ainda mais complexos diante das mudanças comportamentais provocadas pelo excesso de telas, pela ansiedade e pela dificuldade crescente de concentração.
Fernanda chamou atenção para hábitos cada vez mais comuns no ambiente digital, como o consumo superficial de informações e a leitura apenas de manchetes, sem aprofundamento no conteúdo. “Estamos vivendo um momento de alta dificuldade de atenção e concentração. Isso aparece nas escolas, redes sociais, nos comentários desconexos e até na forma como as pessoas consomem informação”, destacou.

Fernanda King durante palestra no auditório de Educação Pública. Foto: Bett Brasil.
Ao abordar o papel das creches, a especialista reforçou que a educação infantil deixou de ter caráter exclusivamente assistencial desde a Constituição de 1988, quando passou oficialmente a ocupar a função de educadora. Apesar disso, segundo ela, grande parte da sociedade ainda não reconhece plenamente a importância pedagógica dessa etapa.
“As pessoas acham que a criança vai para a escola só para brincar, mas essa é apenas a ponta do iceberg. Existem inúmeras habilidades cognitivas, socioemocionais e de autorregulação sendo desenvolvidas nesse processo”, afirmou.
Fernanda também defendeu uma atuação mais integrada entre saúde, educação e assistência social, especialmente nos primeiros anos de vida da criança. Além disso, a participação da família na escola é outro fator determinante. Como exemplo, citou experiências realizadas no Ceará, que apontaram melhora significativa nos resultados educacionais em contextos com maior participação familiar no ambiente escolar.
Na sequência, Márcia Bernardes compartilhou sua experiência profissional na educação infantil, iniciada ainda na juventude. Segundo a profissional, sua trajetória mudou completamente após assumir a direção de uma creche aos 21 anos e compreender o impacto da primeira infância na formação educacional.
“A equipe da unidade que ingressei disse que eu não aguentaria um ano, pois ninguém queria ser diretora de creche, era uma função sem importância no currículo. Mas, quando vi o dia a dia e o trabalho de formação da educação infantil, entendi a dimensão do papel da creche na educação e decidi dedicar minha carreira a isso”, afirmou.
Márcia citou dados de uma pesquisa realizada com estudantes do primeiro ano do ensino fundamental em Atibaia, que analisou a relação entre desempenho escolar e passagem pela creche. Segundo a especialista, o levantamento demonstrou que crianças que frequentaram a educação infantil apresentaram melhores resultados acadêmicos posteriormente.
“Percebemos que quanto mais preparada a criança chega ao primeiro ano, melhores serão seus resultados ao longo da vida escolar”, destacou.

Márcia Bernardes defendeu o fortalecimento da cultura da leitura e da escrita desde o anos iniciais. Foto: Bett Brasil.
A gestora explicou que os dados contribuíram para ampliar políticas públicas voltadas à alfabetização infantil no estado de São Paulo, incluindo a expansão do programa Alfabetiza Juntos para a educação infantil.
Márcia também defendeu o fortalecimento da cultura da leitura e da escrita desde os primeiros anos de vida, além da participação ativa das famílias dentro do ambiente escolar. “Trouxemos os pais para dentro da escola porque o processo de aprendizagem precisa ser coletivo”, afirmou.
Ao abordar os desafios estruturais da educação paulista, ela destacou que cerca de 80% dos municípios do estado são de pequeno porte, o que reforça a necessidade de apoio contínuo do poder público. “O Estado precisa estar presente e oferecer suporte para garantir qualidade na educação infantil”, disse.
Durante a apresentação, Márcia mostrou avanços nos indicadores de fluência leitora entre 2023 e 2025, incluindo o crescimento da taxa de leitura fluente entre estudantes da educação infantil e do ensino fundamental, que passou de 7,4% para 11,8%.
Encerrando o debate, a especialista reforçou a importância da união entre municípios, estado, escolas e famílias para garantir uma educação pública de qualidade. “Todo mundo precisa dar as mãos. O aluno é da escola pública, não é do município ou do estado. Nosso dever é garantir acesso à educação de qualidade, independentemente de onde ele esteja”, concluiu.
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