Educação inclusiva exige políticas integradas e protagonismo estudantil na escola pública
O debate sobre inclusão educacional ganhou ainda mais relevância nos últimos anos. O número de matrículas da Educação Especial chegou a 2,5 milhões no ano passado, um aumento de 82% em relação a 2021, segundo dados do Censo Escolar 2025, divulgados pelo Ministério da Educação (MEC).
O levantamento considera estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento ou altas habilidades matriculados em classes comuns ou em escolas e classes especializadas. A maior concentração dessas matrículas está no Ensino Fundamental, responsável por 63,4% do total.
Em um cenário de expansão do acesso, cresce também o desafio de transformar a inclusão em prática cotidiana nas escolas públicas. Esse é um dos temas que será debatido durante a Bett Brasil no painel “Educação Inclusiva em Ação: direitos, equidade e protagonismo nas escolas públicas”, com a participação da professora e consultora da Unesco, Josevanda Franco. O painel acontecerá no dia 8 de maio, às 12h, no Auditório de Educação Pública. A visitação é gratuita e a inscrição pode ser feita aqui.
Para Josevanda, a efetivação de uma Educação Especial inclusiva ainda esbarra em obstáculos estruturais e sociais que atravessam o cotidiano das redes públicas de ensino. Entre os principais desafios, ela destaca as desigualdades sociais, que impactam diretamente o percurso escolar de milhões de estudantes com questões de insegurança alimentar, violência urbana e doméstica, falta de transporte e de material escolar, além do racismo e da ausência de apoio familiar.
Outro ponto crítico, segundo a especialista, está na formação docente insuficiente. “Sem preparo adequado, o docente pode se sentir inseguro e sobrecarregado, o que dificulta o desenvolvimento de práticas pedagógicas, notadamente quando o recorte de análise é a Educação Especial Inclusiva, que exige o conhecimento para implantação de uma política de equidade”, observa.
As barreiras de acessibilidade representam outro desafio importante. Entre elas, Josevanda chama atenção para a barreira atitudinal, muitas vezes invisível, mas profundamente prejudicial, que abriga racismo, estigmatização, práticas capacitistas e bullying.
“Enfrentar essas barreiras exige uma atuação coletiva que envolva a escola, família, comunidade e instituições públicas, além da garantia de condições adequadas de acessibilidade arquitetônica para os espaços”, diz Josevanda.

Josevanda Franco é presença confirmada na Bett Brasil 2026. Foto: Divulgação.
Nesse contexto, a flexibilização curricular surge como estratégia essencial para promover a inclusão. Segundo a especialista, adaptar práticas pedagógicas não significa reduzir conteúdos, mas reconhecer os diferentes ritmos, limites, habilidades e interesses dos estudantes. “É necessário adotar múltiplas formas de ensinar e avaliar, respeitando as experiências e os saberes que cada estudante traz para a escola”, afirma.
Josevanda também aponta que muitas políticas públicas voltadas à inclusão ainda são implementadas de forma fragmentada, sem articulação entre programas, leis e orientações. Essa falta de integração pode gerar sobrecarga para as escolas e dificultar a continuidade de iniciativas importantes.
Outros desafios incluem ainda a insuficiência ou inexistência dos profissionais do Atendimento Educacional Especializado (AEE), o que impede a identificação, elaboração e a organização dos recursos pedagógicos e de acessibilidade, e a falta de material didático específico de aprendizagem.
Exemplo na prática
Ao longo de sua trajetória, a educadora acompanhou experiências que demonstram como políticas bem estruturadas podem gerar transformações concretas. Um exemplo foi a criação da Política Municipal de Educação Especial Inclusiva em Nossa Senhora do Socorro (SE), quando atuava como dirigente municipal de educação.
A iniciativa instituiu o Núcleo de Atendimento Educacional Especializado (NAEE), responsável por oferecer atendimento multiprofissional a estudantes da Educação Especial. O espaço reunia serviços de psicologia, psicopedagogia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e fisioterapia, ampliando o suporte às escolas e às famílias.
Outro projeto relevante foi o Programa Ilé Iwé (escola na língua yorubá), voltado à formação continuada de professores e coordenadores pedagógicos para a implementação da Lei nº 10.639/2003, que tornou obrigatória a abordagem da história e cultura afro-brasileira no currículo escolar.
Desenvolvido em parceria com o Ministério Público de Sergipe, o programa recebeu o Prêmio Innovare em 2023, um reconhecimento nacional no campo de seguridade de direitos.
Protagonismo estudantil
Além de políticas e práticas pedagógicas, Josevanda destaca o papel do protagonismo estudantil na construção de ambientes escolares acolhedores, democráticos e saudáveis. Para ela, a participação dos estudantes vai além de “dar voz”. “Trata-se de reconhecê-los como sujeitos de direitos capazes de analisar problemas, propor soluções e participar de decisões que impactam a vida escolar”, afirma.
Quando a escola incentiva essa participação ativa, abre espaço para que os próprios estudantes identifiquem situações de preconceito, exclusão ou normas injustas, contribuindo para o enfrentamento de práticas como o bullying. Projetos que fortalecem autonomia, responsabilidade e mediação de conflitos podem melhorar o clima escolar e ampliar o sentimento de pertencimento.
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