01 dez 2021

Educar para se reconhecer e reconstruir a própria identidade

Educar para se reconhecer e reconstruir a própria identidade

Terra Firme é um bairro da periferia de Belém (PA) que sempre teve “fama” pelo histórico de violência. É aí que está localizada a Escola Estadual Brigadeiro Fontenelle, onde a Professora Lília Melo leciona Língua Portuguesa para as turmas do Ensino Médio. Em 2014, uma chacina na comunidade vitimou alunos da educadora, que se viu diante da urgência de agir, de alguma forma, para transformar a realidade local.

 

Foi esse contexto que abriu caminho para o surgimento do Projeto “Cine Clube TF” (de Terra Firme), que colocou os estudantes do bairro como protagonistas na construção de suas próprias narrativas sobre a comunidade, utilizando para isso as diversas linguagens do universo das Artes (cinema, teatro, dança, entre outras). É a partir dessa iniciativa que a Professora Lilia partilha um pouco de sua trajetória e experiência como educadora e embaixadora do Prêmio Professor Transformador. Confira a entrevista: 

 

 

Certamente, muitos dos desafios que superou ao longo da sua trajetória são desafios comuns a muitos educadores e educadoras. Quais foram os maiores e como os superou?

 

Profa. Lília: São muitos, mas acredito que o mais significativo é a questão da credibilidade. Quando um professor ou uma professora que atua em um ambiente escolar dentro da esfera pública vem com uma proposta mais inovadora, libertadora e autônoma de processo de ensino-aprendizagem, sempre vai ter o questionamento acerca das suas aulas, seus conhecimentos, sua metodologia, sua aplicabilidade. Eu sou professora da Rede Estadual de Ensino e atuo no Ensino Médio, principalmente nos terceiros anos. Uma professora de Língua Portuguesa que atua no terceiro ano deveria estar dentro da sala de aula cumprindo com o cronograma e com o programa para preparar os alunos para o Enem e, particularmente, para redigir a redação, que é um texto técnico. No entanto, eu me despi de toda essa metodologia e trouxe uma aplicação dialógica para minhas aulas, tirando os alunos da sala de aula e oferecendo oficinas de produções artístico-culturais. Houve um questionamento muito grande acerca do que eu estava fazendo com os alunos, não só pelos pais dos alunos, mas também pela equipe técnica pedagógica da escola e alguns alunos, inclusive. Nós tivemos bons resultados, inclusive quando eu ganhei o Prêmio Professores do Brasil, em 2018: houve um questionamento muito grande na escola se o que eu ministrava era de fato aula e se isso ajudava os alunos a serem aprovados no Enem. Quando nós inauguramos o projeto Cine Clube TF (TF de Terra Firme), nós começamos a democratizar o acesso ao Cinema e à arte cinematográfica e todo o debate que envolve essa construção da produção audiovisual nas periferias. Quando nós tivemos o maior questionamento, no ano seguinte, em 2019, o Enem vem com o tema da redação: “A democratização do acesso ao Cinema”. Muitos dos alunos que eram envolvidos com o projeto passaram no Enem e muitos alunos de outros estados, que estavam se submetendo ao Exame Nacional, citaram o projeto Cine Clube TF como uma grande referência. Então nós temos, embora esses desafios a serem enfrentados no que diz respeito à credibilidade, por outro lado o resultado, o produto, é bem positivo no sentido que nós estamos no caminho certo. 

  

 

Os desafios impostos à Educação pela pandemia não foram poucos. Muito foi feito com o apoio da tecnologia, mas o papel do professor, como você avalia e define o papel o do professor transformador neste novo contexto da Educação?

 

Profa. Lília: Nesse contexto da pandemia, o papel do educador é perceber o contexto desse processo de ensino-aprendizagem onde estão inseridos seus alunos e alunas. O período da pandemia foi o momento em que se percebeu quais são os critérios que nos colocam como sólido o entendimento do valor à vida. Muito fácil e rapidamente estávamos perdendo pessoas queridas e pessoas conhecidas. Nesse momento, as pequenas coisas são questionadas no sentido de que nós estávamos dentro de um cenário de correria no que diz respeito à vida moderna e essa correria era desenfreada, com muitas coisas a se cumprirem e nós termos que dar conta dessas atividades; perdemos o valor das pequenas coisas, como por exemplo estar junto dos nossos familiares nesse ambiente que a gente considera como lar, como casa. Então, esse período de pandemia veio justamente para trazer um grande medo de se perder quem se ama, mas também de repensar como se constrói esse ambiente de convivência com o outro. Nesse contexto e dentro do cenário da Educação, o professor transformador precisa compreender que seu papel é fundamental enquanto instrumento de percepção, enquanto um instrumento que vai viabilizar possibilidades de entendimento acerca de mim com o outro, quem eu sou e como o outro se faz importante dentro dessa construção. Eu não sou um indivíduo pronto e acabado, eu não sou um sujeito que precisa ser moldado, mas eu estou constantemente em processo de transformação e essa transformação depende muito da minha relação com o outro. O professor precisa criar estratégias que sejam estratégias pedagógicas para compreender o seu aluno e considerar de uma maneira muito sensível o contexto desse processo de ensino-aprendizagem. E aqui cabe falar dos sentimentos que envolvem esse processo. 

 

 

Transformação talvez seja uma das palavras mais pertinentes no atual contexto do nosso país. Na sua visão, quais as transformações possíveis e desejáveis que os professores podem ajudar a promover, com base nas suas práticas?

 

Profa. Lília: Com base na minha trajetória, os processos de transformação que eu considero mais importantes são os de reconhecimento e valorização do meu histórico, da minha identidade, do meu fazer artístico, da minha intervenção cultural. Eu preciso aqui contextualizar o lugar de onde eu falo: sou uma professora que atua dentro de um território que é a Amazônia, que tem os povos tradicionais dessa Amazônia, uma Amazônia que se vê e se reconhece não somente indígena, mas afro e ribeirinha. Então,é necessário considerar toda essa identidade sociocultural da qual eu pertenço. Isso cabe a todo e qualquer educador que atue em qualquer espaço desse Brasil. É importante saber quem eu sou, onde eu estou, o que eu tenho, quais armas posso construir para chegar aonde eu mereça estar. 

 

 

Quem é o Professor Transformador, que possibilita conectar a educação a um presente e futuro desejáveis? 

 

Profa. Lília: Falar de um presente e a construção de um futuro desejável está diretamente ligado com os saberes ancestrais. É interessante falar do hoje para construir o amanhã sempre olhando para o ontem, ou seja, para o que veio antes. Quando a gente fala sobre essa questão dos povos tradicionais e originários da Amazônia, nós temos esse saber ancestral. E a sabedoria ancestral está alicerçada no fazer coletivo. É impossível considerar que se pode ou se é feliz sozinho no mundo; não há felicidade isolada, não há felicidade de um indivíduo que caminha sozinho. É necessário compreender a força que esse coletivo tem e é preciso se conhecer e se fazer presente positiva e produtivamente dentro desse coletivo para poder transformar de acordo com as demandas que vão aparecendo. Quando a gente abre essa consciência do saber quem eu sou dentro do todo, a gente percebe que é muito importante valorizar a pequena estrutura que se tem, mas também não se calar diante da ausência da estrutura que se deve ter. É um direito inclusive nosso. Abre aqui a possibilidade de se construir uma humanidade consciente do papel transformador que pode construir na sua sociedade. 

 

 

E a escola, como pode ser essa escola que possibilita conectar a Educação a um presente e futuro desejáveis?

 

Profa. Lília: Quando se compreende essa nova estrutura de entendimento social, é necessário desconstruir a ideia que se tem de escola. Dentro dos moldes tradicionais, a escola se limita a um prédio, a uma estrutura arquitetônica, em que existem algumas pessoas que exercem algumas funções e essas funções são verticais, elas sempre são hierárquicas. Mas dentro de um processo mais inovador onde se constrói junto, a escola já não é mais uma instituição, ela é um evento, um momento, uma construção contínua. E aí já não cabe mais a verticalidade do processo, tem que ser horizontal porque é dialógico. Eu preciso agora valorizar as comunidades no entorno da escola, os coletivos culturais que atuam dentro desse processo produtivo da sua comunidade, os familiares dos alunos que eu recebo... E nem sempre esse prédio chamado escola vai ser a maior referência de Educação; é por isso que muitas vezes, dentro das comunidades periféricas, uma igreja tem mais força que uma escola. Essa estrutura educacional perpassa por um conjunto de ideias que constrói todo um conceito acerca do que se aprende e do que se ensina ou do que se ensina e do que se aprende. O que há de dialógico nisso é possibilitar que a referência de que antes era um indivíduo que ensinava e outro indivíduo, em outro extremo, que aprendia, agora essa função vai ser uma função móvel, vai modificar. Eu ensino e aprendo, eu aprendo e ao aprender eu também estou ensinando. Isso é muito importante: saber que a escola não é um prédio, saber que a escola não é a única referência de Educação dentro de uma comunidade. 

 

 

Que mensagem você deixa para os professores e professoras que superam desafios diários para empreender uma Educação Transformadora?

 

Profa. Lília: Quero deixar um recado para as professoras e professores que estão cumprindo com seu papel de transformação dentro da sociedade a partir desse instrumento poderosíssimo chamado Educação. Nós estamos fazendo e não estamos parados nunca, cada um faz de acordo com o que pode, dentro das limitações impostas. Mas falar de educador e educadora dentro do país chamado Brasil e nesse contexto político que está completamente fragmentado, polarizado... É importante dizer que nossa missão é árdua, tem muitas dificuldades, muitos desafios a serem enfrentados, mas ela não é em vão. Ela está aí para que a gente possa acreditar que o caminho certo de fato é escutar uns aos outros, se conectar através dessas escutas, dessas narrativas, e reverberar histórias que valem a pena. Não desista, continue e acredite que o seu trabalho faz total diferença dentro desse contexto da Educação. 

 

 

Para finalizar, gostaríamos que fizesse um convite aos educadores de todo o Brasil para que participem do Prêmio Professor Transformador 2021:

 

Profa. Lília: Olá professora e professor da Educação Básica, da rede privada ou pública. Aqui quem fala é a professora Lilia Melo, eu fui embaixadora da primeira edição do Prêmio Professor Transformador, em 2020. E esse ano, a segunda edição do Prêmio traz novidades. Por isso, o Instituto Significare, a Bett Educar e a Base2edu estarão antecipando a divulgação de projetos pré-selecionados agora no mês de outubro. Essa antecipação é para garantir que as práticas de Educação Transformadora que se destacarem nessa edição do Prêmio já possam ser conhecidas e permitam que os professores possam integrar a rede de educadores transformadores. Nessa rede, os projetos são inseridos em um Banco de Práticas, um espaço completamente online e de acesso gratuito. Todo professor e toda professora tem histórias incríveis para contar e esse espaço possibilitará a socialização e o diálogo de práticas transformadoras. Para inscrições, acesso ao regulamento e outras informações, basta você acessar o site do Instituto Significare. Professor e professora, você tem uma história incrível pra contar? Então, vem com a gente!

Link de Inscrição para a 2ª edição de Prêmio Professor Transformador 

https://significare.org.br/premio/



Conhecendo melhor a Profa. Lília Melo

É a partir de suas próprias raízes que a Profa. Lília Melo inicia sua apresentação. Filha de pai “flanelinha” (que se tornou depois um grande repórter policial) e mãe empregada doméstica (que investiu no seu processo de escolaridade e se formou pela Universidade Federal do Pará, tornando-se uma grande professora de Língua Portuguesa e Literatura), Lília identifica nas distintas trajetórias dos pais o exemplo de que o conhecimento pode ser obtido de diferentes fontes.

“Faço questão de mencionar meus pais porque ambos trazem o exemplo de duas vertentes diferentes acerca do conhecimento e do estudo. Um, o conhecimento de mundo, que não é tido e nem considerado pela academia, mas que traz a expertise do viver melhor a partir da leitura crítica do mundo que nos cerca. E o outro é um conhecimento escolarizado, aquele que a gente investe na escola para conseguir galgar um espaço e um reconhecimento dentro da área na qual nós nos propomos a atuar”, destaca a educadora. 

Graduada em Letras e Artes pela Universidade Federal do Pará (UFPA), Lília Melo leciona na rede estadual de ensino e, em 2018, foi eleita a “Melhor Professora do Brasil” com o Prêmio Professores do Brasil, na categoria Ensino Médio. Em 2020, esteve entre os 50 finalistas do “The Global Teacher Prize”, considerado o “Prêmio Nobel” da Educação.

 

 

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