"Em tempos de Inteligência Artificial, aquilo que nos torna profundamente humanos passa a ser o nosso maior diferencial", diz Débora Garofalo
A professora Débora Garofalo é uma das principais referências brasileiras em inovação educacional, tecnologia e aprendizagem criativa. Em 2019, tornou-se a primeira mulher brasileira e a primeira sul-americana a figurar entre os dez finalistas do Global Teacher Prize, prêmio internacional promovido pela Varkey Foundation e conhecido como o "Nobel da Educação", graças ao projeto Robótica com Sucata, desenvolvido na Escola Municipal Ary Parreiras, em São Paulo.
Em 2026, foi novamente reconhecida pela Varkey Foundation ao se tornar a primeira vencedora do 'Global Teacher Influencer of the Year', premiação inédita criada para reconhecer educadores que ampliam o impacto da aprendizagem para além da sala de aula por meio de sua atuação e influência.
Na avaliação da educadora, a tecnologia deve ampliar as possibilidades de aprendizagem sem substituir o protagonismo humano. Nesta entrevista ao Bett Blog, Débora discute como a Inteligência Artificial pode ser incorporada às escolas de forma ética, crítica e criativa, preservando competências que continuam sendo essencialmente humanas.
Débora é uma das palestrantes confirmadas na Jornada Bett Nordeste, que será realizada nos dias 19 e 20 de agosto de 2026, no Recife Expo Center, em Recife (PE). A visitação é gratuita. As inscrições podem ser feitas aqui.
Bett Blog: Ao longo da sua trajetória, do projeto Robótica com Sucata à implementação de políticas de inovação educacional, você sempre defendeu que a tecnologia precisa estar a serviço da aprendizagem. O que permanece como princípio para uma boa prática pedagógica depois da chegada de tecnologias emergentes, como a Inteligência Artificial?
Débora: A tecnologia muda rapidamente, mas os princípios para uma boa educação continuam os mesmos. Ao longo da minha trajetória, seja criando o projeto Robótica com Sucata em uma escola pública, seja coordenando políticas de inovação em redes de ensino ou participando da construção da BNCC da Computação, aprendi que o ponto de partida nunca é a tecnologia, mas a intencionalidade pedagógica.
A Inteligência Artificial amplia possibilidades, automatiza tarefas e personaliza experiências de aprendizagem, mas ela não substitui aquilo que é essencialmente humano: a capacidade de inspirar, mediar, acolher, provocar perguntas e desenvolver pensamento crítico.
O papel da escola continua sendo formar cidadãos capazes de compreender o mundo e transformá-lo. A tecnologia é um meio para isso, nunca um fim em si mesma. Quando colocamos a aprendizagem no centro, qualquer tecnologia passa a ser uma aliada poderosa.
Bett Blog: Neste contexto, na sua visão, quais competências passam a ser ainda mais valiosas para o desenvolvimento integral dos estudantes?
Débora: Vivemos um momento em que o acesso à informação deixou de ser o maior desafio. Hoje, o diferencial está na capacidade de analisar, interpretar, criar e tomar decisões éticas.
Competências como pensamento crítico, criatividade, resolução de problemas complexos, colaboração, comunicação, empatia e responsabilidade digital tornam-se ainda mais relevantes. Somam-se a elas o pensamento computacional e a capacidade de dialogar com sistemas de Inteligência Artificial de maneira consciente e crítica.
A própria Política Nacional de Educação Digital e a BNCC da Computação caminham nessa direção: formar estudantes que compreendam como as tecnologias funcionam, saibam utilizá-las de forma ética e sejam protagonistas na construção de soluções para problemas reais.
No futuro, o conhecimento técnico continuará sendo importante, mas serão as competências humanas que diferenciarão as pessoas.
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Bett Blog: E como a escola pode desenvolvê-las de forma intencional?
Débora: Essas competências não são desenvolvidas em aulas expositivas ou apenas pelo uso de ferramentas digitais. Elas precisam ser vividas.
Isso acontece quando os estudantes investigam problemas reais, trabalham em equipe, desenvolvem projetos, prototipam soluções, testam hipóteses, aprendem com os erros e refletem sobre o impacto social das suas escolhas.
Foi exatamente essa lógica que norteou o projeto Robótica com Sucata, reconhecido internacionalmente. Os estudantes não aprendiam robótica para construir robôs. Aprendiam para resolver problemas da comunidade utilizando materiais reutilizados, desenvolvendo consciência ambiental, pensamento científico e protagonismo.
A escola precisa criar ambientes onde os estudantes deixem de ser apenas consumidores de tecnologia para se tornarem criadores, pesquisadores e solucionadores de problemas.
Bett Blog: Agora, pensando nos professores que ainda demonstram receio em relação à IA, seja pelo desconhecimento da tecnologia ou pelo medo de que ela substitua parte do trabalho docente. Como transformar essa preocupação em oportunidade de desenvolvimento profissional?
Débora: O receio é absolutamente compreensível. Em praticamente toda inovação tecnológica houve um momento inicial de insegurança.
Mas a experiência mostra que a Inteligência Artificial não substitui professores; ela substitui tarefas repetitivas. Quem substitui um professor é outro professor que sabe utilizar melhor as possibilidades que essa tecnologia oferece.
A IA pode apoiar o planejamento de aulas, sugerir estratégias diferenciadas, produzir materiais, analisar dados de aprendizagem e reduzir parte da carga burocrática. Isso permite que o professor dedique mais tempo ao que realmente importa: acompanhar os estudantes, promover interações significativas e construir vínculos.
Por isso, a formação continuada torna-se essencial. Não basta ensinar a utilizar uma ferramenta. É preciso discutir ética, privacidade, vieses algorítmicos, autoria, pensamento crítico e, principalmente, como integrar a IA aos objetivos pedagógicos.
A tecnologia evolui rapidamente, mas o desenvolvimento profissional do professor continua sendo o maior investimento que uma escola pode fazer.
Bett Blog: Para finalizar, se você pudesse deixar uma mensagem para gestores e educadores que estão começando a discutir IA em suas escolas, qual seria o primeiro passo para construir uma cultura de inovação que coloque a tecnologia a serviço de uma aprendizagem mais significativa, inclusiva e centrada no protagonismo do aluno?
Débora: O primeiro passo não é comprar plataformas ou contratar ferramentas de Inteligência Artificial. É construir uma visão compartilhada sobre que tipo de estudante queremos formar.
Quando existe clareza sobre os objetivos educacionais, a escolha das tecnologias passa a fazer sentido.
Inovação não acontece porque a escola possui equipamentos modernos. Ela acontece quando existe uma cultura de aprendizagem, experimentação, colaboração e confiança entre gestores, professores e estudantes.
A Inteligência Artificial deve ser incorporada como parte de um projeto pedagógico maior, comprometido com a inclusão, a equidade e o desenvolvimento humano.
Costumo dizer que o futuro da educação não será definido pela tecnologia que entra na escola, mas pela qualidade das perguntas que ensinamos nossos estudantes a fazer, pela capacidade de trabalhar coletivamente e pelo compromisso de formar pessoas capazes de utilizar a tecnologia para melhorar a vida em sociedade. Afinal, em tempos de Inteligência Artificial, aquilo que nos torna profundamente humanos passa a ser o nosso maior diferencial.
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