“Enem dos Professores” pode elevar o rigor na seleção docente, mas exige implementação efetiva
O chamado “Enem dos Professores”, como ficou conhecida a Prova Nacional Docente (PND), surge como uma das principais apostas recentes para enfrentar desafios históricos da educação básica no Brasil, que vão da qualidade da formação inicial à valorização da carreira docente.
Em entrevista ao Conexão Bett, a líder científica do Todos Pela Educação, Barbara Born, analisa os potenciais impactos do exame e alerta: seu sucesso dependerá menos da proposta em si e mais da forma como será implementada e incorporada pelas redes de ensino e instituições formadoras.
Barbara explica que a PND utiliza como base o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), tradicional instrumento de avaliação do ensino superior no Brasil, especialmente nos cursos de licenciatura. A diferença central está no uso: enquanto o Enade mede a qualidade da formação acadêmica, a PND pode ser incorporada como etapa de concursos públicos e processos seletivos para professores da educação básica.
Na prática, isso significa que tanto estudantes em fase de conclusão quanto docentes já formados poderão utilizar o desempenho na prova como credencial para ingressar ou se movimentar na carreira.
“O aluno que está saindo dos cursos de graduação já estará, ao fazer a PND, participando de uma etapa que pode ser usada para ingresso na carreira docente. Isso cria uma pressão sobre as instituições de ensino superior para alinharem seus currículos às demandas reais das redes de ensino público”, afirma. Para ela, esse movimento pode contribuir para elevar o padrão de qualidade dos cursos de formação inicial.
Outro avanço destacado por Barbara Born é a reformulação do próprio Enade, impulsionada pelo desenho da Prova Nacional Docente, com a ideia de integrar as duas avaliações. A nova estrutura amplia o peso dos conhecimentos pedagógicos e práticos, com questões voltadas a temas como avaliação, planejamento curricular e práticas de ensino, além dos conteúdos específicos de cada área. “Há um olhar mais detalhado sobre o que a sociedade entende como essencial para o exercício da docência”, afirma.
Assista ao episódio completo:
Formação inicial e valorização da carreira
Barbara pondera que o conceito de valorização docente ainda é frequentemente reduzido à dimensão salarial. “Valorizar uma profissão também passa por reconhecer sua complexidade e estabelecer critérios claros de entrada. Profissões com maior prestígio social costumam ter mecanismos de seleção mais rigorosos”, argumenta, traçando um paralelo com o exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
Nesse sentido, segundo ela, a PND poderia funcionar como um primeiro passo para fortalecer a percepção de que a docência exige competências específicas e alto nível de preparo para atuar em sala de aula.
No entanto, a líder científica do Todos Pela Educação faz um alerta que é fundamental que os resultados da prova sejam efetivamente utilizados como instrumento regulador. “O Enade já existe há anos e, mesmo com desempenhos muito baixos, muitos cursos continuam funcionando sem mudanças significativas. Se a PND não for acompanhada de medidas que impactem a qualidade dos cursos, seu potencial se perde”, diz.
A discussão sobre a prova também se conecta a um problema estrutural mais amplo que é a qualidade da formação inicial dos professores. De acordo com Barbara, houve nas últimas décadas uma expansão acelerada de cursos de licenciatura de baixa qualidade, especialmente na modalidade de educação a distância (EAD).
Atualmente, cerca de 70% dos estudantes dessas formações estão no ensino remoto — percentual que chega a 80% em pedagogia. “É difícil imaginar a formação de um professor de educação infantil ou alfabetizador sem vivência prática, sem interação presencial, sem modelagem de comportamento em sala de aula”, critica.
Para reverter esse quadro, Born defende maior investimento público e priorização da formação docente nas políticas educacionais. “Se a educação de qualidade é prioridade no país, precisamos investir de verdade na formação de professores, inclusive nas regiões mais afastadas do país”, afirma.
Atratividade da profissão no Brasil
A criação da PND também ocorre em um contexto de crescente preocupação com a escassez de docentes no Brasil. Projeções indicam um possível déficit significativo de professores nas próximas décadas, cenário que pode ser agravado pelo desinteresse de jovens pela carreira. Dados preliminares analisados pelo Todos Pela Educação apontam que estudantes com melhor desempenho acadêmico tendem a optar por outras áreas, evitando cursos de licenciatura.
Para Barbara, essa tendência exige uma abordagem sistêmica. “Não há como atrair novos professores sem cuidar de quem já está na sala de aula. Os jovens só vão se interessar pela carreira se enxergarem bons exemplos — profissionais valorizados, bem formados e reconhecidos”, conclui.
Barbara é uma das palestrantes convidadas da Bett Brasil 2026. Ela estará no painel O “Enem dos Professores” — seleção, qualificação e carreira docente no novo contexto”, junto com o presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, Manuel Palacios, no dia 5 de maio às 14h, no auditório de Educação Pública. A visitação é gratuita e a inscrição deve ser feita aqui.
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