Evasão no ensino superior expõe desafios financeiros e pedagógicos
A evasão é um dos principais desafios para a expansão do acesso ao ensino superior no Brasil. Embora a Educação a Distância (EaD) amplie as possibilidades de ingresso na graduação, a permanência dos estudantes até a conclusão do curso ainda é um obstáculo para as instituições.
Dados da 16ª edição do Mapa do Ensino Superior no Brasil, publicado pelo Instituto Semesp em março de 2026, mostram que a taxa de evasão na modalidade EaD chegou a 41,6%, enquanto no ensino presencial o índice foi de 24,8%, considerando o ano de 2024.
Os números evidenciam que ampliar o acesso à graduação não é suficiente para garantir a formação dos estudantes. Para o diretor de Regulação da Educação Superior do Ministério da Educação (MEC), Daniel de Aquino Ximenes, a inclusão depende de três dimensões: acesso, permanência e qualidade. Na EaD, o desafio passa pela capacidade das instituições de oferecer cursos com qualidade acadêmica e manter os alunos envolvidos no processo de aprendizagem.
Na avaliação do diretor do MEC, a evasão no ensino superior está relacionada a diferentes fatores, entre eles a qualidade da formação, os modelos de oferta e a adequação dos cursos às expectativas dos estudantes.
Segundo Ximenes, é necessário avaliar se as propostas pedagógicas e metodológicas das instituições correspondem ao perfil dos jovens que ingressam na graduação, considerando as mudanças ocorridas nas últimas décadas.
A atratividade dos cursos também depende da relevância das áreas de formação para os estudantes e para o país. “Obviamente, essa discussão passa necessariamente pela qualidade. Sem qualidade, não há atratividade. Esse é um ponto básico”, destaca.
O diretor acrescenta que o MEC vem trabalhando no aprimoramento da regulação da educação superior à distância, incluindo a revisão dos instrumentos de avaliação utilizados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).
A avaliação dos cursos e das instituições, de acordo com Ximenes, deve permitir uma compreensão mais clara dos padrões de qualidade oferecidos à sociedade.
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Dificuldades financeiras e empregabilidade
As condições econômicas estão entre os fatores que interferem na continuidade dos estudos. O Chief Operating Officer de Ensino Superior da Cogna Educação, Jeferson Altenhofen Ortiz, afirma que os indicadores acompanhados pela companhia apontam o peso das questões financeiras nas decisões de cancelamento ou trancamento de matrícula.
“Quando analisamos alguns dos nossos indicadores, uma das principais razões para a saída, seja pelo cancelamento ou pelo trancamento do curso, é a questão financeira. Cerca de 70% dos casos estão relacionados a esse fator”, afirma Ortiz. Segundo o executivo, a organização financeira dos estudantes e de suas famílias também merece atenção, especialmente quando as mensalidades representam um obstáculo à continuidade da graduação.
Outro aspecto é a relação entre formação acadêmica e inserção profissional. Para Ortiz, oportunidades de estágio podem contribuir para manter o estudante vinculado ao curso e aproximar a graduação de seus objetivos de carreira.
Como exemplo, Ortiz cita a parceria entre a Cogna Educação e o Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), voltada à conexão de estudantes do ensino superior com oportunidades de estágio. De acordo com os indicadores apresentados pelo executivo, entre os alunos que realizam estágio por meio da parceria, a evasão é aproximadamente 20% menor.
“Isso significa que existe um fator de consistência e de manutenção do aluno nesse processo”, avalia.
A duração da graduação também pode representar uma dificuldade. Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mencionados por Ortiz indicam que cerca de 49% dos estudantes brasileiros do ensino superior levam pelo menos três anos a mais do que o período regular para concluir o curso.
O tempo adicional pode prolongar o compromisso financeiro e pessoal necessário para a formação, reforçando a importância de políticas de acompanhamento que considerem as condições de vida dos estudantes.
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Mediação pedagógica como estratégia de permanência
Na EaD, a flexibilidade de horários e a possibilidade de estudar fora de um campus universitário ampliam o acesso, mas não eliminam a necessidade de acompanhamento acadêmico.
A interação entre estudantes e profissionais responsáveis pela mediação pedagógica é um elemento importante para reduzir a evasão. “O aluno de educação a distância não pode ficar distante e isolado. Ele tem que ser um aluno frequente no processo pedagógico todos os dias”, argumenta Ximenes.
A necessidade de acompanhamento também aparece nos indicadores citados por Ortiz. Segundo ele, estudantes que interagem com o mediador pedagógico apresentam resultados de conclusão superiores aos daqueles que não mantêm essa interação. “Se você pega um aluno que não interage e um aluno que interage com o mediador, que é o antigo tutor, 50% a mais se gradua”, afirma.
Para o executivo, o trabalho de mediação deve ir além do apoio ao conteúdo acadêmico. O diálogo contínuo e a atenção às dificuldades dos estudantes podem ajudar a identificar obstáculos antes que eles resultem no abandono do curso. “O fator humano é muito importante”, diz Ortiz.
A estrutura de apoio presencial também integra a discussão sobre a permanência na educação a distância. Para Ximenes, os polos cumprem uma função importante no modelo brasileiro, considerando as dimensões territoriais e as características econômicas, culturais e históricas do país.
“O Brasil precisa de polos. Cada país tem suas características. Quando trabalhamos com políticas públicas, temos que considerar as características econômicas, culturais, políticas e históricas do país com o qual estamos lidando”, afirma.
Novo marco regulatório prevê mudanças na EaD
O novo marco regulatório da Educação a Distância é outra frente que deve influenciar a organização dos cursos nos próximos anos. Segundo Ximenes, o período de transição termina em maio de 2027, quando será possível observar como as instituições se adaptaram às novas exigências.
“A partir daí (maio de 2027), começa uma nova fase. Algumas instituições levam essa transição muito a sério e fazem muito bem esse processo; outras, nem tanto. Isso será um termômetro a ser observado”, afirma.
O equilíbrio entre acesso, qualidade e permanência será, portanto, um dos desafios para as instituições e para as políticas públicas de educação superior. A redução da evasão depende de medidas que considerem tanto as condições de oferta dos cursos quanto às necessidades acadêmicas, financeiras e profissionais dos estudantes.
Para Ortiz, a graduação representa uma etapa importante de uma trajetória de aprendizagem que se estende ao longo da vida e pode ampliar as perspectivas profissionais dos alunos.
“O ensino superior é uma etapa dentro de uma jornada muito longa de aprendizagem, um fator extremamente importante para a ascensão profissional e salarial”, conclui. O painel foi realizado durante a Expo CIEE 2026.
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