Férias, para não faiá.

Autora convidada: Adriana Fóz

As vezes nossa mente falha. Falha de cansaço, por fragilidade emocional, falha na necessidade em dar uma paradinha...

A pausa faz parte da música, das estações do ano, do rendimento no trabalho. Todo cérebro necessita de descanso, da infância aos perennials, ou ainda da geração A até a Alfa*. Hoje já sabemos e vivemos na pele, por conta da pandemia, o quanto cuidar e priorizar os tempos de nossas atividades é fundamental para a saúde integral e para a educação.

O descanso, des-canso, ou melhor, “tirar” o cansaço, gera renovação, como podemos perceber pelo funcionamento da nossa máquina da vida, o verdadeiro criador de tudo nas palavras do neurocientista Miguel Nicolelis: o cérebro, por meio da necessidade em dormir, por exemplo. Todo dia precisamos vivenciar o sono em uma certa medida, para que um novo dia seja vivido.

Não posso deixar de relembrar sobre o vocábulo férias que tem origem no latim feriae, o qual era os dias em que os romanos não trabalhavam por razões religiosas. Já vacaciones (espanhol), vacances (francês) e vacation (inglês) derivam de vacare, ou seja, de vácuo.

Sim, férias tem a ver com vácuo, espaço vazio. O espaço de ausência gera espaço para a presença, já pensou nisto? Sempre gostei da ideia de um vaso vazio significando riqueza de possibilidades. Só o vazio é que pode ser preenchido. Deixando o tom poético de lado, a pausa das férias e o vazio das vacaciones, servem para renovar, reabastecer em força e energia. Os tempos digitais ocupam tanto o nosso tempo de modo que não percebemos o quanto ficar conectado nos ocupa. Fala-se em detox digital, mas aqui falo também de detox de pensamentos pesados e muitas vezes nocivos, aqueles que nos criam armadilhas, inclusive boicotando ler este artigo ou outro que te faça refletir na dose certa: o suficiente para agir. Afinal, segundo nosso cérebro, esta é a função dos pensamentos.

Convido-lhe, neste momento, e sem culpa, a repensar o modo como costuma pensar suas férias e realizá-la, pois ela não é luxo, mas sim receita para sua saúde física, emocional e mental.

Muitas vezes não podemos viajar, nem fazer o que fora programado, mas isso não impede de você se dar de presente, um presente diferente! Sugiro que seu presente seja o tempo. Sim, se dê tempo para fazer mais coisas que gosta. Dê “um tempo” para coisas que não gosta. Faça no tempo que escolheu, as atividades de um modo diferente. Você já viveu a experiência da uva-passa? Se não, procure pelo áudio “meditação da uva-passa”, no site da NeuroConecte. Esta irá proporcionar uma experiência relaxante, uma vivência inédita e no mínimo curiosa, para o descanso de seus fadigados neurônios.

Mas e quanto às crianças, filhos ou alunos?

A regra do cérebro não privilegia só os adultos. Principalmente as crianças precisam de vazios para serem preenchidos de brincadeiras, espaços para a criatividade, vivências espontâneas onde a regra é apenas da saúde, segurança e boa educação. Experimentar, apreciar, vivenciar. Com o tempo das férias fica mais fácil incentivar brincadeiras mais analógicas e deixar no pause, as digitais. Poder criar e fazer os dias do “nada”, para nadar na possibilidade, cultivar a “reciclagem emocional” sem perceber, pois buscar novidades gera prazer promove o cérebro.

Crianças sabem mais e melhor como descansar a mente. Costumam ser mais espontâneas, instintivas. Já adultos podem ser mais intuitivos quando criam tempo para o lazer, para o ócio. E claro, não posso deixar de lembrar dos estudos de Domenico de Masi, autor do livro Ócio Criativo, que trata da importância do equilíbrio entre trabalho, estudo e vida pessoal. Porém aqui falo de férias, mesmo!

E bora lá, cantarolar aquela música do Gilberto Gil: 

desfrutar das férias, eu vou, pois “as féria não costuma faiá, oh la, lá!”.

 

Dicas para o adulto brincar e gozar das férias, afinal um adulto relaxado promove relações mais plenas com as crianças e com outros:

  • Jogar muitos jogos, pintar, desenhar, cantar, meditar...;
  • Assistir romances, pode ser aqueles bem ”novelísticos”.Se não assistiu ao filme Divertidamente (da Pixar), esta é a hora!;
  • Experimente algo diferente, que você sempre quis fazer ou que “pintou” no momento, para fazer;
  • Ler poesias;
  • Quando lembrar do “to do list” (lista dos deveres ou coisas que precisa fazer para o próximo ano) faça só a lista, se te aliviar.
  • Viva tempos para a família e amigos;
  • Tire tempo, para você. Não tire o tempo, de você!

 

 

Referências:

*Perennials: considerados “ageless”, podem ser indivíduos com mais de 60 anos e que permanecem atualizados ou de outras décadas, são acolhedores, amigáveis e experientes.

Baby boomers: nascidos entre 1945 e 1964, valorizam a família, estabilidade financeira e não é afável à mudanças.

              Geração X: nascidos entre 1965  1979, são mais aprofundados em seus conhecimentos e buscam por independência e segurança.

              Millenials ou Geração Y: nascidos entre 1980 e 1996, quando o mundo se tornava mais tecnológico, principalmente com a internet.

Geração Z: nascidos entre o final da década de 1990,  até anos 2010, englobando nativos digitais, são superantenados, engajados em causas sociais e ambientais.

            Geração Alfa: 100% digital, já não entendem mais um mundo sem telas.

 

Saiba mais sobre a autora:


 

Adriana Fóz, Mestre em Ciências pela Psiquiatria e Psicologia Médica - UNIFESP, Educadora (USP), especialista em Neuropsicologia e Psicopedagogia. Diretora da NeuroConecte. Membro do Conselho Consultivo - Fundação ABRINQ. Pesquisadora em Neurociência Cognitiva e Educacional e Terapeuta Cognitiva de jovens e adultos (consultório e online). Professora, Palestrante, inclusive do TEDx, e Escritora. Co-fundadora e foi gestora do Proj. Cuca Legal (Psiquiatria/UNIFESP) e membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Neuropsicologia.  Professora convidada de importantes universidades (pós graduação de Neurociência - USP; pós graduação de Neuropsicologia – CDN UNIFESP), dentre outras.

Seus últimos livros são A Cura do Cérebro (Ed. Novo Século) e Frustração- como treinar competências para enfrentar os desafios da vida pessoal e profissional (Ed. Benvirá).

 

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