Fórum de Gestores promove reflexões sobre os novos desafios da liderança educacional
Em um cenário educacional atravessado por mudanças aceleradas, novas tecnologias e desafios sociais cada vez mais complexos, o papel da liderança escolar ganhou ainda mais relevância na Bett Brasil. Neste sentido, o Fórum de Gestores tornou-se um espaço dedicado à reflexão estratégica e à troca de experiências sobre gestão educacional.
Durante a Bett Brasil, realizada de 5 a 8 de maio, no Expo Center Norte, mais de 30 palestrantes compartilharam experiências, análises e perspectivas sobre temas que foram da inteligência artificial à inclusão, passando pelo uso de dados na gestão escolar e pelas mudanças culturais necessárias dentro das instituições. Nesta edição, o Fórum contou com o patrocínio da Eletromidia, isaac, Microkids e LIV.
Inteligência artificial, equidade e o desafio da transformação
Um dos debates trouxe para o centro da discussão o chamado “mix de inteligências” necessário para transformar a escola em um contexto cada vez mais impactado pela inteligência artificial. O painel reuniu os irmãos Luciano Meira, professor da Proz Educação, e Silvio Meira, cientista-chefe da TDS.company, que provocaram o público ao defender que inovação tecnológica, sozinha, não é suficiente para promover mudanças reais na educação.
Para Luciano Meira, a transformação digital nas escolas passa diretamente pela discussão sobre equidade. “Não adianta a inteligência artificial avançar se não criarmos condições para que todos tenham acesso às mesmas oportunidades de desenvolver competências e habilidades. A tecnologia pode reduzir custos, mas, sem equidade, ela também pode ampliar desigualdades”, afirmou.

Painel com os irmãos Meira debateu o 'mix das inteligências' na educação. Foto: Bett Brasil.
A discussão também abordou a distância entre a realidade hiperconectada da sociedade e os modelos ainda predominantes dentro das escolas. Ao apresentar o conceito de mundo “fígital”, que integra o físico, o digital e o social, Silvio Meira defendeu que a educação precisa reinterpretar suas práticas pedagógicas.
“Hoje, vivemos experiências completamente integradas, mas a escola ainda não conseguiu interpretar isso dentro da sua lógica. O desafio é reconstruir práticas pedagógicas para que a tecnologia faça sentido no processo de aprendizagem”, destacou.
Para os irmãos Meira, a tecnologia só gera valor quando combinada à inteligência humana e à capacidade de articulação dentro dos ecossistemas educacionais.
Inclusão exige mudança estrutural nas escolas
Outro eixo importante do Fórum de Gestores foi a inclusão. Em um momento em que a neurodiversidade ganha cada vez mais espaço no debate educacional, especialistas defenderam que as instituições avancem além do discurso e promovam mudanças efetivas em sua cultura e estrutura pedagógica.
O painel reuniu o CEO do Instituto do Autismo e da Universidade da Inclusão, Kadu Lins, e a fonoaudióloga e psicopedagoga do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP, Telma Pantano.
Durante o debate, os especialistas reforçaram que a inclusão não pode ser entendida apenas como adaptação pontual, mas como uma revisão profunda das relações, dos currículos e das práticas escolares. Para Kadu Lins, o desafio está em garantir que cada estudante seja compreendido em sua individualidade.

Painel com Kadu Lins e Telma Pantano refletiu sobre a inclusão em sala de aula. Foto: Bett Brasil.
“O grande desafio hoje é fazer com que um ensino verdadeiramente adaptado chegue a todos. Inclusão passa por entender cada estudante, fazer os ajustes necessários e construir caminhos possíveis dentro de cada contexto. Isso também envolve confiança das famílias e o preparo da escola para apoiar o aluno, inclusive no desenvolvimento emocional diante das mudanças e dos desafios do ambiente escolar” afirmou Lins.
Já Telma Pantano chamou atenção para a importância de compreender os diferentes processos de aprendizagem e as múltiplas formas de funcionamento do cérebro.
“Aprender não é um processo simples. Exige estímulo, constância e condições adequadas de atenção. E isso não acontece da mesma forma para todos. Quando falamos de neurodivergência, estamos reconhecendo essas diferenças. A escola precisa entender essas características e criar estratégias para lidar com elas, porque a diversidade sempre existiu, o que muda agora é o nosso nível de compreensão sobre ela”, destacou Telma.
Dados e tecnologia como aliados da gestão escolar
A gestão orientada por dados também apareceu como uma das pautas estratégicas do Fórum. Em um cenário no qual as instituições acumulam informações de diferentes sistemas e plataformas, especialistas discutiram como transformar dados em ações concretas para melhorar a aprendizagem, reduzir evasão e fortalecer o acompanhamento dos estudantes.
Para o gestor de Integração Tecnopedagógica (Colégio GGE e Juntos Educação) Tayguara Velozo, muitas escolas ainda trabalham de maneira reativa, resolvendo problemas apenas quando eles já impactaram o desempenho ou a permanência dos alunos.
“A escola é um gerador de dados, que chegam por sistemas diversos desde a portaria, passando pelo administrativo, marketing, agendas, registros de acompanhamento de alunos até vias de comunicação com os pais. O desafio começa na integração de tantas camadas de comunicação e na organização desses dados”, afirmou Velozo.
A líder em Estratégia de Dados e coordenadora de Dados e Analytics do Itaú Unibanco, Carina Sucupira, destacou que nenhum estudante abandona a escola sem emitir sinais prévios — e que a análise de dados pode ajudar as instituições a agir preventivamente. “Sempre há sinais. Os sistemas utilizados pelas escolas registram esses movimentos e podem apoiar ações mais personalizadas e cuidadosas”, disse.

Gestão orientado por dados foi tema do painel com Tayguara Velozo e Carina Sucupira. Foto: Bett Brasil.
Segundo Carina, muitas instituições ainda utilizam pouco os relatórios disponíveis e tomam decisões mais baseadas na intuição do que em evidências. Para ela, integrar e interpretar informações permite criar padrões e desenvolver ações preventivas mais eficientes.
Velozo também citou alguns exemplos. “As instituições contam com sistemas de acompanhamento dos alunos: frequência, execução de tarefas, aproveitamento, desempenho etc. Também contam com sistemas que sinalizam a chamada ‘evasão silenciosa’, quando a família se afasta e deixa de participar. Esses dados, organizados e analisados, permitem que ações sejam tomadas para prevenir a evasão ou a repetência do aluno, não apenas ao final do ano escolar, mas no decorrer do período”, completou.
Hiperconectividade na adolescência
Já a palestra “Entre Likes e Leis” trouxe à tona um dos temas mais sensíveis da atualidade: os impactos da hiperconectividade na adolescência. Participaram Caio Lo Bianco, CEO do LIV, e a juíza Vanessa Cavalieri, que discutiram o uso excessivo de telas, cidadania digital, legislação e os efeitos das plataformas na saúde mental dos jovens, incluindo as novas diretrizes previstas na Lei nº 15.211/2025, que estabelece limites para atuação das plataformas digitais com menores.
“A gente está diante de um cenário preocupante, em que a exposição digital começa cada vez mais cedo e com riscos concretos. Hoje, já vemos o aumento de conteúdos sensíveis, como o compartilhamento de imagens íntimas e até a geração de nudes falsos por inteligência artificial — uma pesquisa do Unicef estima que 1,2 milhão de crianças foram impactadas por esse tipo de situação em 2025. Isso reforça a importância de pais e responsáveis estarem atentos e próximos do que os filhos consomem e publicam”, destacou Caio Lo Bianco.

Caio Lo Bianco e Vanessa Cavalieri debateram os impactos da hiperconectividade na adolescência. Foto: Bett Brasil.
Vanessa Cavalieri chamou atenção para a necessidade de combinar regulação com educação. “A legislação traz avanços importantes ao restringir práticas como publicidade direcionada a menores, notificações com apelo emocional e o acesso irrestrito às redes sociais. Mas isso não resolve tudo. Estamos falando de um fenômeno que também precisa ser enfrentado dentro das escolas, com formação, diálogo e construção de uma cultura digital mais consciente, que envolva estudantes, famílias e o próprio Estado”, pontuou.
A discussão também avançou para um tema que tem preocupado educadores, famílias e formuladores de políticas públicas: o crescimento das apostas online entre jovens, as famosas Bets. Os especialistas destacaram que a lógica de gamificação dessas plataformas, associada à sensação de recompensa imediata, tem ampliado o risco de dependência, um comportamento que já é classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como transtorno relacionado a jogos.
“Existe uma camada de ludicidade nesses ambientes que mascara o risco. Para muitos jovens, a aposta começa como entretenimento, mas rapidamente pode se transformar em um comportamento compulsivo, com impactos diretos na vida pessoal, acadêmica e financeira”, alertou Vanessa Cavalieri.
Dados recentes reforçam a dimensão do problema. Segundo levantamento da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), 34% dos jovens entre 18 e 35 anos que planejavam ingressar no ensino superior em 2025 adiaram a matrícula por conta de gastos com apostas — o que representa quase 1 milhão de pessoas fora das universidades.
Inteligência humana e artificial
No campo da transformação humana, a palestra de João Branco, especialista em marketing e ex-CMO do McDonald’s, foi uma verdadeira inspiração para os educadores refletirem sobre o papel do propósito no trabalho. João Branco abriu sua fala na Bett Brasil com uma provocação à plateia — "Qual é o seu trabalho?" — e respondeu com uma visão que vai além do cargo ou função de cada um:
"O seu trabalho não é só onde você vai trocar tarefas feitas por salário. Seu trabalho é ser útil, usando seus talentos, dons e habilidades para colocar em prática o que pode melhorar a vida do outro. As intenções importam. Trabalhe com a intenção certa, de servir, ajudar e amar ao próximo”, disse o especialista. Em um cenário em que educadores enfrentam desafios crescentes, da sobrecarga à necessidade de reinvenção em sala de aula, a discussão sobre significado e engajamento ganhou destaque na Bett Brasil.

João Branco falou sobre liderança e propósito no trabalho durante painel. Foto: Bett Brasil.
Já o empresário Walter Longo trouxe uma reflexão provocadora sobre o avanço da inteligência artificial no contexto educacional. Em uma abordagem mais humanística e menos alarmista, ele convidou o público a olhar para a tecnologia não como ameaça, mas como expansão das capacidades humanas.
“A inteligência artificial não é o fim da inteligência humana, é o começo da nossa versão ampliada. O desafio não é competir com a máquina, mas entender como ela pode potencializar aquilo que nos torna humanos, por meio da nossa criatividade, nossa ética e nossa capacidade de fazer perguntas melhores”, afirmou.
Para Longo, o momento exige menos medo e mais lucidez. Segundo ele, o papel da educação é justamente preparar indivíduos para esse novo cenário, em que tecnologia e pensamento crítico caminham juntos. “A revolução já começou, e ela pede uma mudança de mentalidade. Não se trata de substituir pessoas, mas de ampliar possibilidades, permitindo, necessariamente, pela forma como educamos e pensamos”, concluiu.
Liderança educacional mais humana e estratégica
Ao longo dos debates, o Fórum de Gestores deixou evidente que o futuro da educação dependerá cada vez mais da capacidade das lideranças escolares de integrar tecnologia, inclusão, inteligência humana e gestão estratégica.
Mais do que apresentar respostas prontas, o espaço promoveu reflexões sobre como construir instituições mais conectadas às transformações da sociedade e mais preparadas para lidar com os desafios do presente e do futuro. Em um momento em que a escola é chamada a responder a mudanças cada vez mais rápidas, o Fórum de Gestores reafirmou a importância do diálogo, da colaboração e da inovação consciente para fortalecer a educação brasileira.
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