IA exige nova postura pedagógica nas escolas
A presença da inteligência artificial no ambiente escolar deixou de ser uma tendência para se tornar uma realidade. Ferramentas de IA já fazem parte da rotina de estudantes, professores e famílias, influenciando desde a produção de trabalhos até o planejamento pedagógico.
Diante desse cenário, a discussão central já não é mais sobre a chegada da tecnologia, mas sobre como utilizá-la de forma ética, crítica e alinhada aos objetivos da educação. Esse foi o ponto de partida da reflexão do diretor de Ensino e Inovações da Arco Educação, Ademar Celedônio, durante entrevista ao Conexão Bett.
Segundo Celedônio, a adoção da inteligência artificial nas escolas ocorre de forma ampla e, muitas vezes, sem planejamento. “Temos hoje a IA como uma presença muito forte nas escolas desde quando os alunos estudam, pesquisam, escrevem, aprendem”, afirma. O especialista cita dados recentes que indicam que sete em cada dez alunos do ensino médio já utilizam a tecnologia em suas atividades.
Entre os professores, o movimento também é expressivo: mais da metade dos docentes brasileiros já utiliza ferramentas de IA, sobretudo para tarefas operacionais. “O lado bom é que o professor tem menos tempo com atividades administrativas e mais tempo para o que é pedagógico”, explica. Nesse sentido, a tecnologia contribui para otimizar processos como correção de avaliações, organização de registros escolares e produção de materiais didáticos.
Ainda assim, ele ressalta que essa implementação acontece impulsionada principalmente pela facilidade de uso das plataformas.
Entre benefícios e riscos
Se, por um lado, a IA amplia a produtividade e oferece novas possibilidades de ensino, por outro levanta preocupações importantes. Questões relacionadas a direitos autorais, confiabilidade das informações e vieses nos conteúdos gerados já fazem parte do debate educacional.
Celedônio relata uma experiência pessoal ao testar uma ferramenta de IA com um problema clássico de matemática. “A resolução que veio era praticamente a de um livro conhecido — sem qualquer crédito ou referência”, conta. Para ele, esse tipo de situação evidencia a necessidade de desenvolver um olhar crítico sobre o uso da tecnologia.
“Os alunos precisam entender como essas ferramentas funcionam, quais são seus limites e como utilizá-las de forma ética e responsável”, afirma.
O papel dos gestores: reação em curso
No nível da gestão escolar, o cenário ainda é de adaptação. “O ano de 2026 é de reação”, resume Celedônio. Segundo ele, muitas instituições ainda buscam compreender por onde começar, enquanto outras são pressionadas por mudanças em vestibulares e exames nacionais, que já incorporam discussões relacionadas à inteligência artificial e ao pensamento crítico.
Esse movimento tem levado escolas, inclusive as mais orientadas por resultados, a revisarem suas práticas. “Quando a instituição trata esse tema como algo distante, ela deixa de orientar um processo que já está acontecendo”, alerta.
Para o especialista, o risco é claro: formar alunos para um mundo que já não existe mais. “O maior problema não é tecnológico, é pedagógico”, enfatiza. “Sem mediação da escola, os estudantes passam a usar a IA sem critério, sem reflexão.”
Formação docente e mudança de mentalidade
Diante desse cenário, a formação contínua de professores se torna central. Mais do que aprender a utilizar ferramentas, é preciso compreender como a inteligência artificial transforma o próprio sentido da docência.
“A IA não muda só a ferramenta, ela muda o contexto e o propósito da docência”, afirma Celedônio. Para ele, o papel do professor segue sendo essencial, mas precisa se adaptar a uma nova lógica de ensino, na qual a tecnologia é ativa e participativa.
Entre as competências fundamentais, ele destaca a capacidade de reconhecer limites e vieses da IA, além de ensinar os alunos a formularem boas perguntas. “A escola sempre foi voltada a responder perguntas. Agora, vai ganhar o jogo quem ensinar a elaborar boas perguntas”, diz.
Essa mudança de foco aponta para uma educação mais centrada no pensamento crítico e na autonomia intelectual, habilidades cada vez mais valorizadas em um cenário de mudanças aceleradas.
Um desafio global em construção
Apesar da urgência, Celedônio reconhece que não há respostas prontas. Sistemas educacionais ao redor do mundo ainda buscam caminhos para lidar com o avanço da inteligência artificial. “Está todo mundo tentando acertar”, afirma.
A própria Arco Educação, uma das principais companhias brasileiras focadas em soluções educacionais para a educação básica, acompanha de perto essa transformação. A empresa desenvolve conteúdo, tecnologia e serviços para mais de 3 milhões de alunos e cerca de 9 mil escolas privadas em todo o país, abrangendo da educação infantil ao ensino médio — um alcance que reforça a dimensão do desafio.
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