IA na educação: o que realmente mudou e o que esperar para 2026?
A rápida popularização das ferramentas de inteligência artificial generativa transformou o cotidiano das escolas brasileiras nos últimos anos. Na visão da consultora pedagógica de inovação do Instituto Escolas Criativa, Giselle Santos, os anos de 2024 e 2025, foram marcados por curiosidade, urgência e experimentação acelerada, mas também por excessos e lacunas importantes no debate sobre ética, privacidade e uso responsável.
Giselle abordou o assunto em entrevista no primeiro episódio de 2026 do Conexão Bett. Na conversa, ela analisou os impactos reais da IA na educação e os desafios que se colocam para o futuro próximo.
Segundo a especialista, o balanço dos últimos dois anos revela movimentos paralelos no uso da inteligência artificial nas escolas. “Em 2024 havia uma pressa gigante: ou as pessoas tinham muito medo e não usavam nada, ou usavam demais, de forma totalmente acrítica”, afirma.
Já em 2025, embora tenha havido mais experimentação e abertura ao uso da IA, Giselle avalia que o processo seguiu pouco estruturado. “A cada lançamento surgia um novo hype e isso alimentava uma adoção acelerada, sem tempo para planejamento ou diretrizes claras”, diz.
Esse cenário se reflete diretamente no comportamento de crianças e adolescentes no ambiente digital. Dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, divulgada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), mostram que 65% das crianças e jovens entre 9 e 17 anos já utilizaram ferramentas de IA generativa para alguma atividade na internet.
O levantamento revela que 59% recorreram à IA para pesquisas escolares ou estudos, 42% para buscar informações, 21% para criar conteúdos e 10% para conversar sobre emoções ou problemas pessoais.
Assista à entrevista completa:
IA na vida das crianças
Giselle ressalta que o problema não está apenas no acesso. A consultora alerta para erros graves cometidos especialmente no uso da IA com crianças, como o desrespeito às faixas etárias indicadas pelas próprias plataformas, a falta de transparência sobre cessão de dados e o uso indiscriminado de ferramentas que capturam imagens, vozes e dados biométricos.
“Muitas vezes, o estudante está apenas realizando uma atividade proposta pelo educador, sem qualquer compreensão das consequências, como o uso de seus dados por terceiros, e a chance de revogação do consentimento”, explica.
Outro ponto sensível destacado pela especialista é a expansão de brinquedos interativos baseados em IA, capazes de gravar voz, reconhecer padrões emocionais e gerar perfis comportamentais desde a primeira infância.
Ao mesmo tempo, Giselle reconhece que a IA pode trazer ganhos relevantes, especialmente em acessibilidade, como no uso de ferramentas de comunicação alternativa para estudantes não verbais, desde que sua adoção seja cuidadosamente planejada.
O que esperar para 2026?
Olhando para 2026, a avaliação é de que o setor educacional entra em um momento decisivo. Após os excessos iniciais, cresce a necessidade de um “freio de arrumação”, impulsionado por avanços regulatórios, como o ECA Digital, e por debates mais maduros sobre responsabilização.
A tendência, segundo Giselle, é que a IA passe a integrar a infraestrutura pedagógica das escolas, com protocolos claros, governança de dados e formação docente orientada por níveis reais de proficiência e prontidão. “Antes de ensinar o uso de prompts é preciso criar protocolos. Vamos reunir a comunidade escolar e decidir o que pode, o que não pode e como agir quando algo dá errado”, concluiu.
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