IA provoca reflexão sobre o futuro da escola
A inteligência artificial estreou um auditório próprio na 31ª edição da Bett Brasil. Pela primeira vez, o evento realiza o “Summit IA na Educação”, um espaço dedicado a discutir como a tecnologia já começa a redesenhar o ensino, da educação básica à superior.
Com curadoria conjunta da Bett Brasil e da plataforma de IA educacional AI4School, da Conexia Educação, a iniciativa reúne especialistas nacionais e internacionais em uma programação voltada às aplicações práticas, desafios e caminhos possíveis para a adoção da IA nas escolas.
Na abertura do Summit, a diretora geral da Bett Brasil, Claudia Valério, destacou que o momento atual exige uma mudança de postura por parte das instituições de ensino. Segundo ela, a discussão já não passa mais pela escolha de usar ou não a inteligência artificial, mas pela necessidade de compreendê-la e incorporá-la de forma consciente.
Ao trazer o tema para o centro da programação, a intenção é evidenciar o impacto direto da tecnologia no ambiente escolar, sem perder de vista o papel humano nesse processo. “A inovação só faz sentido quando acompanhada de mediação, contexto e responsabilidade”, afirma a diretora.
Também presente na abertura, o CEO da Conexia, Sandro Bonás, apontou uma lacuna histórica no debate sobre tecnologia para a educação. Segundo ele, embora a inteligência artificial já seja amplamente discutida em diferentes setores, a educação nem sempre ocupa posição central nessas conversas.
“Discutir inteligência artificial sem ouvir professores, gestores e pedagogos limita a compreensão sobre seus reais impactos”, disse. Ele reforça que a criação do Summit busca reposicionar os educadores como protagonistas de uma transformação que já vem acontecendo dentro das salas de aula.
Entre avanços e limites: qual o futuro da IA?
A discussão ganha um tom mais amplo na palestra do professor e especialista em inovação Gil Giardelli, que propõe uma mudança de perspectiva: mais do que entender a inteligência artificial, será necessário aprender a conviver com ela.
Segundo Giardelli, a tecnologia já impulsiona uma nova lógica econômica global, a chamada “IA economy”, e representa uma das maiores janelas de oportunidade da atual geração. No entanto, esse avanço não ocorre sem efeitos colaterais.
“O aumento da produtividade convive com o crescimento de quadros de esgotamento. Nunca vimos tantos casos de burnout como agora”, alerta.
Nesse cenário, o debate passa inevitavelmente pela ética. Para Giardelli, embora a tecnologia seja neutra, seu uso não é, e exige limites claros. Ele cita exemplos que já desafiam essas fronteiras, como empresas que trabalham na desextinção de espécies e no desenvolvimento de rostos artificiais com expressões humanas. “Isso nos leva a uma pergunta central: até onde devemos usar a tecnologia?”, provoca Gil.
Impactos visíveis dentro das salas de aula
Se ainda há dúvidas sobre a aplicação da IA nas escolas, alguns países já apresentam resultados concretos. A China, por exemplo, tem incorporado a inteligência artificial ao cotidiano escolar com o uso de robôs, gamificação e tecnologias capazes de medir níveis de atenção e aprendizado dos alunos. Há também tecnologias que mapeiam o desempenho esportivo de crianças e jovens nas escolas, contribuindo para o impulsionamento de novos talentos.

De acordo com Giardelli, após três anos de implementação, essas iniciativas já indicam melhorias significativas no desempenho acadêmico, com aumento de até 65% nas notas. Especialistas defendem que o uso estratégico de dados permite que professores compreendam com mais precisão a absorção de conteúdo e adaptem suas abordagens.
O desafio começa na base
Apesar dos avanços, o palestrante chama atenção para um ponto crítico: o foco excessivo no ensino superior. Na avaliação dele, o maior potencial de transformação está na educação básica, especialmente na primeira infância, fase em que habilidades como criatividade e curiosidade podem ser mais profundamente desenvolvidas.
Segundo Giardelli, nesse contexto, a escola assume um papel ainda mais estratégico. “Mais do que transmitir conhecimento, a escola passa a ser responsável por formar indivíduos capazes de interpretar, questionar e agir em um mundo cada vez mais mediado por tecnologia. Para isso, é indispensável estimular a curiosidade e a criatividade da criança”, enfatiza.
Ética com IA
Ainda no Summit, outra pauta abordou temas como ética, vieses algorítmico e o risco de delegar decisões pedagógicas à tecnologia, debates que acompanham o avanço acelerado da IA no mundo todo.
Ao longo da conversa com o diretor de Inovação e Tecnologia da Fundação Lemann, Guilherme Cintra, o pesquisador Afiliado da New York University e Fundador da Escribo - Educação do Seu Jeito, Americo Amorim e a pesquisadora e Gestora de Inovação da humani:a, Gi Santos, foi discutido como manter o professor no centro da mediação do aprendizado, evitando a delegação excessiva de decisões para a tecnologia.
“O que a IA pode permitir são bons diálogos, boas conversas. Não tem nada mais ancestral que a tecnologia do diálogo. Se confunde o domínio do conhecimento, a saber ensinar, mas a IA ainda não se provou ser maior que o professor e não sei se queremos que ela se prove”, comentou Cintra.
Encerrando a agenda de debates do dia, uma roda de conversa sobre proteção e educação no ambiente digital trouxe um alerta importante: formar cidadãos digitais exige diálogo contínuo entre escola, família e sociedade. Em um contexto de aumento de riscos online, o tema ganha ainda mais relevância para gestores e educadores.
Ao longo do dia, ficou evidente que, mais do que tendências, os temas discutidos já fazem parte da realidade das escolas e exigem respostas concretas.
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