Neurodiversidade exige mudança estrutural nas escolas
A escola que se propõe a acolher a neurodiversidade precisa fazer mais do que criar adaptações pontuais ou flexibilizações individuais. Precisa rever sua lógica. Essa é a avaliação da fonoaudióloga e psicopedagoga Telma Pantano, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, que defende uma mudança estrutural na cultura escolar.
O tema estará em debate no Fórum de Gestores da Bett Brasil 2026, maior evento de Inovação e Tecnologia para a Educação da América Latina. O painel “Mais que aceitação: como a neurodiversidade exige transformação em cultura, currículo e comunidade”, contará também com a participação do CEO do Instituto do Autismo e da Universidade da Inclusão, Kadu Lins, e acontecerá no dia 05 de maio.
De acordo com Telma, a escola foi historicamente construída sob uma lógica de padronização cognitiva e comportamental, na qual qualquer diferença tende a ser interpretada como falha ou atraso. “Quando a gente começa a entender o cérebro, compreende que a diversidade cerebral é natural”, afirma.
Condições como TDAH, dislexia e altas habilidades, explica Telma, não devem ser vistas apenas sob a ótica da patologia, mas como variações neurobiológicas (formas distintas de funcionamento) que podem se beneficiar de intervenções e processos contínuos dentro do ambiente escolar.
Essa mudança impacta diretamente a leitura que a escola faz do comportamento dos estudantes. “Muita indisciplina, desinteresse, começam a ser vistos e muitas vezes interpretados como expressão do funcionamento neuronal”, diz. Em vez de punição, abre-se espaço para planejamento pedagógico flexível.

Telma Pantano é uma das palestrantes confirmadas na Bett Brasil 2026. Foto: Reprodução.
Para Telma, aprender é resultado da interação entre processos cognitivos e socioemocionais. Por isso, acolher a neurodiversidade implica variar tempos e ritmos, investir em estratégias multimodais de ensino, flexibilizar situações avaliativas, reduzir a sobrecarga informacional e tornar instruções e objetivos mais claros. “Isso ajuda a diminuir questões de estresse emocional no aluno”, avalia.
O papel do professor
A transformação no processo de ensino e aprendizagem também redefine o papel do professor. “Ele deixa de ser aquele que transmite conteúdo e começa a ser um regulador emocional coletivo, alguém que vai trabalhar com estratégias compensatórias”, afirma a especialista. Para isso, é indispensável formação em neurodesenvolvimento, capacidade de leitura do comportamento e trabalho colaborativo com equipes multiprofissionais.
“Não existe uma única forma de ensinar, assim como não existe uma única forma de aprender”, destaca Telma. A resistência em abandonar modelos tradicionais e padronizados, avalia, está ligada à permanência da noção de que o que foge ao normal é doença. No entanto, as neurociências mostram que a “variabilidade é a regra, não é uma exceção”.
Essa constatação impõe um desafio direto à formação docente. “A formação inicial e continuada dos professores ainda não ensina sobre a neurodiversidade como deveria”, diz ela. Para quem trabalha com ensino, compreender as diferentes formas de contato com o conhecimento é condição básica. “A diversidade das estratégias de ensino e de avaliação é o que compõe uma escola que realmente consegue acolher as características neuro diversas dos alunos”, afirma.
Para Telma, a diferença entre discurso e mudança real está justamente aí: na disposição de rever estruturas, currículos, práticas e relações. A escola que reconhece a neurodiversidade como parte da condição humana não apenas inclui, mas se reconstrói.
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