O despertar da razão africana: por que o Brasil precisa descolonizar o conhecimento
A filosofia, em sua essência, nasce do "espanto". Platão e Aristóteles já afirmavam que esse sentimento de maravilhamento diante do mundo e da própria existência é o ponto de partida para qualquer atividade reflexiva.
No entanto, por séculos, o sistema de educação brasileiro foi levado a acreditar que esse "espanto" e a busca por respostas eram privilégios exclusivos do mundo ocidental. Para professores, acadêmicos e jornalistas, compreender que a racionalidade não possui fronteiras geográficas é o primeiro passo para uma verdadeira emancipação intelectual.
O conhecimento das tradições filosóficas africanas não é apenas uma reparação histórica, mas uma necessidade epistemológica para compreender a complexidade da condição humana em sua totalidade.
Desconstruindo o monopólio da razão: a universalidade do pensar
A ideia de que a filosofia é uma exclusividade grega ou europeia é um equívoco que limita a nossa compreensão sobre a natureza humana. Filosofar é, fundamentalmente, refletir sobre a experiência humana para responder a questões básicas sobre a vida e o universo.
Como a natureza e a experiência humana são essencialmente as mesmas em todo o globo, a tendência de buscar esse conhecimento por meio da reflexão é constitutiva de nossa espécie. Portanto, não existe lugar no mundo onde os seres humanos não tenham filosofado.
Na África, assim como na Grécia antiga, indivíduos foram tomados pelo encantamento diante das complexidades do cosmos e da subjetividade. O fato de muitas dessas reflexões não terem sido preservadas inicialmente por meio da escrita não anula sua existência ou seu rigor lógico. A habilidade de pensar de modo coerente faz parte da racionalidade humana universal, e é falso supor que povos não ocidentais não empreguem a razão apenas por não seguirem os moldes da lógica aristotélica ou rousseliana.
Muitas vezes, a filosofia africana tradicional foi transmitida por mitos, provérbios, máximas de sabedoria e organizações político-sociais.
Embora alguns estudiosos, como o professor Kwasi Wiredu, tenham classificado essas formas como "pensamento de comunidade" ou "filosofia em sentido amplo", é crucial entender que essas ideias não surgiram do vazio. Elas são frutos de reflexões profundas de pensadores individuais, cujos nomes podem ter se ‘’perdido’’ no tempo, mas cujo legado intelectual permanece vivo na cultura e no patrimônio do continente.
Para a educação brasileira, resgatar esses fragmentos significa oferecer aos estudantes uma visão mais rica e plural da inteligência humana.
Do tradicional ao contemporâneo: a riqueza intelectual na prática pedagógica
Integrar a filosofia africana nas escolas e universidades brasileiras permite que o conhecimento seja apresentado de forma mais ampla e sofisticada. Um exemplo notável é o conceito Akaniano da essência humana, que descreve a pessoa como sendo composta por cinco elementos distintos: nipadu (corpo), okra (alma/guia), sunsum (caráter), ntoro (herança paterna) e mogya (identidade do clã herdada da mãe).
Este é um sistema de pensamento altamente elaborado sobre a subjetividade que desafia as dicotomias simples do pensamento ocidental e demonstra uma profunda investigação sobre a condição humana.
Além da tradição, a filosofia africana contemporânea oferece debates vigorosos essenciais para o pensamento crítico atual. Pensadores como Kwame Nkrumah, Leopold Senghor e Julius Nyerere contribuíram imensamente para a filosofia política.
No campo acadêmico, o debate entre Kwasi Wiredu e Joseph Omoregbe sobre a natureza da verdade e da existência demonstra o alto nível de rigor lógico da área. Enquanto Wiredu propõe teses como "a verdade não é distinta da opinião" e "existir é ser conhecido", Omoregbe as contesta defendendo a objetividade da verdade e a independência da existência em relação ao ato de conhecer.
Trazer esses debates para a sala de aula transforma a educação em um processo de investigação ativa. O estudo da filosofia africana exige, muitas vezes, um "trabalho de campo" intelectual, onde a memória dos anciãos e a tradição oral ocupam o lugar que as bibliotecas detêm no Ocidente.
Isso ensina aos estudantes brasileiros novas metodologias de pesquisa e a valorização de diferentes fontes de saber. Essas perspectivas são resultados de processos de raciocínio e observação sistemática tão válidos quanto os de qualquer outra tradição.
Um convite à expansão de horizontes
Expandir o currículo para incluir os filósofos africanos não são exercícios de exotismo, mas um compromisso com a verdade e com a qualidade do conhecimento que oferecemos às novas gerações.
Ao reconhecermos que a África possui seus próprios sistemas de lógica, ética e metafísica, permitimos que estudantes e professores brasileiros se conectem com uma parte essencial da história intelectual da humanidade que lhes foi negada por muito tempo. A filosofia africana nos ensina que o pensamento é uma ferramenta universal de libertação e que a diversidade de perspectivas é o que realmente enriquece a nossa compreensão sobre quem somos e qual o nosso papel no universo.
E por falar em compreensão e ensinamentos, você já ouviu falar de Imhotep? E de Ptahhotep?
Sim sim, ambos filósofos, mas tem mais:
Imhotep: viveu aproximadamente entre 2650-2600 a.C. (III Dinastia). Ptahhotep: viveu no final do século XXV a.C. e início do século XXIV a.C. (por volta de 2400 a.C., V Dinastia).
E sim, eles viveram muitos e muitos anos antes de Sócrates e Aristóteles, que são da Grécia Clássica
- Sócrates: Viveu entre 470-399 a.C
- Aristóteles: Viveu entre 384-322 a.C
No meu trabalho com escolas e secretarias, algo que gosto muito é a criação de projetos por meio da investigação. E é por isso que deixo aqui um convite para você professor, educador pensar atividades, projetos para trabalhar com seus alunos e até mesmo com seus colegas:
- Qual a importância dos anciãos na pesquisa da filosofia africana?
- Como a filosofia política contemporânea contribui para a educação hoje?
E lembre-se, fazer educação para as relações étnico-raciais e educação antirracista não é ficar falando de racismo na escola. por mais que alguns episódios tornem esses diálogos também importantes, mas, esta não é a base do ERER (cação para as relações étnico-raciais).
ERER é justamente trazer para a base da educação, para o currículo, para o cotidiano da educação, para a bibliografia, ou seja, para todos os campos possíveis, as construções, contribuições, saberes, intelectualidades e pensamentos do negro no Brasil e no mundo. Tal qual fazemos com os europeus. Não é sobre substituir os saberes, mas, construir o mundo onde estes saberem coexistem.
Te espero na Bett Brasil!
Sobre a autora:
Janine Rodrigues
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Bett Brasil.
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