Por que saber perguntar se tornou uma competência essencial na escola?
Durante décadas, a escola foi organizada para ensinar conteúdos e avaliar a capacidade dos estudantes de reproduzir respostas. A expansão da Inteligência Artificial, capaz de gerar textos, resolver problemas e produzir respostas em poucos segundos, desafia essa lógica e coloca uma nova competência no centro do processo de aprendizagem: saber perguntar.
Esse será o ponto de partida do painel "Além das respostas prontas: autoria, criatividade e pensamento na escola", que integra a programação da Jornada Bett Nordeste, realizada nos dias 19 e 20 de agosto, no Recife Expo Center, em Recife (PE). A visitação é gratuita. Inscreva-se aqui.
O debate reunirá a diretora executiva do Instituto Reúna, Katia Smole, e a professora do Departamento de Psicologia da Universidade de Pernambuco (UFPE), Marina Pinheiro, para um diálogo sobre como a escola pode estimular práticas pedagógicas que preparem estudantes para atuar de forma crítica, criativa e protagonista diante dos desafios do presente e do futuro.
“Talvez o maior desafio da educação seja formar pessoas capazes de transformar conhecimento em sabedoria”, afirma Katia. Na avaliação da diretora executiva do Instituto Reúna, a diferença entre informação, conhecimento, inteligência e sabedoria se torna ainda mais evidente com a presença da IA. Enquanto a tecnologia facilita o acesso ao conhecimento e auxilia na resolução de problemas, cabe às pessoas atribuir sentido ao que aprendem e decidir como utilizar esse conhecimento.
Segundo ela, esse processo passa pela capacidade de formular boas perguntas. “Perguntas de qualidade ampliam a curiosidade, orientam investigações, ajudam a analisar evidências, identificar vieses, estabelecer conexões entre diferentes áreas do conhecimento e construir novos significados", destaca.

Katia Smole explica a importância das escolas desenvolverem o pensamento crítico dos estudantes. Foto: divulgação.
Katia relaciona esse desafio às competências apontadas para a educação do século XXI, que envolvem conhecimento, habilidades, caráter e meta-aprendizagem. Para ela, criatividade e pensamento crítico dependem de repertório, mas também de experiências que levem os estudantes a investigar, formular hipóteses e aperfeiçoar soluções.
Ela lembra ainda que os resultados do PISA 2022, que avaliou pela primeira vez o pensamento criativo, reforçam a necessidade de ampliar esse tipo de experiência nas escolas brasileiras.
"No fim, talvez a pergunta mais importante para a escola contemporânea não seja 'o que nossos estudantes precisam saber?', mas 'que tipo de pessoas queremos formar para usar esse conhecimento com responsabilidade, criatividade e propósito?'", complementa.
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Marina observa que a habilidade de formular perguntas sempre foi condição fundamental para a produção do conhecimento, da autoria e da inovação científica e tecnológica. Com a IA, segundo ela, essa competência deixa de ser apenas desejável e passa a ser indispensável.
Para a pesquisadora, durante muito tempo o ensino foi estruturado em torno da memorização e da lógica do acerto e do erro, deixando pouco espaço para a curiosidade e a investigação.
"A Inteligência Artificial evidencia a obsolescência dessa lógica. Quando qualquer resposta pode ser obtida em poucos segundos, o diferencial deixa de ser acumular informações e passa a ser saber formular questões relevantes, interpretar criticamente as respostas, confrontá-las com conhecimentos prévios e produzir novos sentidos", argumenta a professora.
Para Marina, esse movimento exige que a escola valorize o desejo de aprender tanto quanto o domínio de conteúdos.
Autoria continua sendo responsabilidade do estudante
Outro ponto de convergência entre as especialistas é a defesa da autoria como elemento central da aprendizagem.
Katia destaca que o uso da Inteligência Artificial não reduz a importância da produção autoral. Pelo contrário: amplia a necessidade de que estudantes sejam capazes de justificar escolhas, analisar informações e assumir responsabilidade pelo conhecimento que produzem.
Na prática, isso significa utilizar a IA como apoio para investigações, e não como substituta do pensamento.
"Um exemplo prático é transformar uma pesquisa escolar em uma investigação. Em vez de solicitar apenas um texto sobre determinado tema, o professor pode propor que os estudantes formulem perguntas investigativas, confrontem as respostas produzidas pela IA com fontes confiáveis e construam sínteses próprias, explicando quais argumentos aceitaram, modificaram ou rejeitaram e por quê", explica.
Marina também compreende a autoria como um processo construído no diálogo com diferentes perspectivas. Segundo ela, ser autor não significa criar do zero, mas interpretar, selecionar, questionar e atribuir novos significados ao conhecimento disponível.

Marina Pinheiro reforça o papel da autoria como elemento central da aprendizagem. Foto: divulgação.
Nesse contexto, a IA pode desempenhar um papel importante para estabelecer conexões e recombinar informações, desde que seja utilizada como interlocutora e não como fonte definitiva de respostas.
"Algumas possibilidades são desenvolver projetos baseados na resolução de problemas reais, promover debates em que os estudantes comparem diferentes respostas geradas pela IA, discutir os critérios que tornam uma fonte confiável e incentivar a reescrita e o aprimoramento de textos produzidos com apoio dessas ferramentas. Nessas situações, a tecnologia deixa de fornecer respostas prontas e passa a estimular reflexão, argumentação e criação", ressalta Marina.
Da intenção à prática nas escolas
Embora o desenvolvimento de competências como pensamento crítico, criatividade, autoria e resolução de problemas esteja previsto em documentos e políticas educacionais, fazer com que essas habilidades estejam presentes de forma consistente no cotidiano das escolas ainda é um desafio.
Para Katia, o Brasil já construiu uma base importante para essa mudança com iniciativas como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a Política Nacional de Educação Digital (PNED), a Estratégia Nacional de Escolas Conectadas e os recentes referenciais do Ministério da Educação sobre Inteligência Artificial na Educação Básica. Segundo ela, o desafio deixou de ser definir a direção e passou a ser transformar essas referências em prática.
A diretora do Instituto Reúna afirma que as competências não podem ser tratadas como conteúdos adicionais, mas precisam orientar toda a organização do ensino. Isso exige maior coerência entre currículo, avaliação, materiais didáticos, formação inicial e continuada de professores, gestão escolar e políticas públicas. “Quando todos esses elementos caminham na mesma direção, cria-se um ambiente em que competências complexas deixam de ser apenas intenções e passam a orientar efetivamente o trabalho pedagógico”, destaca.
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A Inteligência Artificial acelera essa necessidade de repensar o modelo educacional. “A IA é apenas um catalisador. O verdadeiro movimento é a passagem de um currículo centrado na transmissão de conteúdos para um currículo voltado ao desenvolvimento de competências complexas. Isso posiciona a tecnologia a ocupar o seu devido lugar: não como finalidade, mas como contexto que torna essa transformação ainda mais necessária”, diz Katia.
Marina concorda que o principal obstáculo é cultural. Segundo ela, apesar de os currículos valorizarem competências como pensamento crítico, criatividade e resolução de problemas, muitas práticas escolares continuam centradas na transmissão de conteúdos e na reprodução de respostas corretas.
Para a professora, desenvolver autoria e pensamento crítico exige tempo para investigar, formular hipóteses, dialogar, revisar ideias e construir argumentos. Também demanda uma formação docente capaz de compreender como a IA altera a produção do conhecimento e quais experiências educativas permanecem insubstituíveis.
"Os caminhos passam, portanto, pelo fortalecimento da formação docente, pela valorização de práticas investigativas e colaborativas e pela construção de uma cultura escolar em que perguntar, argumentar, criar e revisar sejam compreendidos como dimensões centrais da aprendizagem", finaliza.
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