12 set 2022

Professores deveriam preparar o aluno para o futuro, e não para o passado do professor

Professores deveriam preparar o aluno para o futuro, e não para o passado do professor
De que formação estamos falando? Daquela mais vinculada ao conteudismo, que não dialoga com um mundo disruptivo, ou daquela baseada no desenvolvimento de habilidades e competências?

A formação de professores é possivelmente o tema que mais divide opiniões na área da educação. Uma coisa, porém, é certa: a qualidade do professor, segundo pesquisas e estudos de relevância acadêmica, é o fator intraescolar que mais impacta a aprendizagem escolar (vejam, por exemplo, Rivkin, S. G., Hanshek, E. A., Kain, J. F., "Teachers, schools, and academic achievement", Econometrica, vol. 73, no. 2, March, 2005, pp. 417-458). E por que divide opiniões Há várias questões em jogo, a começar pela carga horária destinada à formação. Hoje, segundo a Resolução CNECP n 022019, destinam-se pelo menos 3.200 horas para formar um professor. Mas, para chegar a essa quantidade, acompanhando a resolução anterior do próprio Conselho Nacional de Educação (CNE), o debate não foi trivial.

Outro ponto era quanto dessas 3.200 horas deveria ser destinado à formação prática. Na época da elaboração da resolução acima, com base em estudos e pesquisas, houve um clamor a respeito da necessidade de fortalecê-la, já que a formação no Brasil - comparada à de outros países que estão no topo da educação mundial - era muito teórica, e pouca atenção se dava a uma formação prática que dialogasse com o chão de escola. Hoje são 800 horas, o que equivale a 25% do total, e começando já no primeiro ano de curso.

Outro aspecto importante é: de que formação estamos falando Daquela mais vinculada ao conteudismo, que não mais dialoga com um mundo disruptivo, ou daquela baseada no desenvolvimento de habilidades e competências Certa vez, em visita ao Instituto Nacional de Educação, em Cingapura - um dos mais conceituados do mundo -, os professores daquela instituição ficaram impressionados com a quantidade de teoria destinada à formação de professores no Brasil - ou seja, muita teoria e pouca prática. Segundo Richard Hamming, matemático americano falecido no final da década de 1990, os professores deveriam preparar o aluno para o futuro do aluno, e não para o passado do professor.

Outra questão em jogo consiste em como usar as novas tecnologias na formação dos professores. A pandemia nos mostrou claramente que não apenas os nossos professores, mas os de quase todas as partes do mundo, não estavam preparados para empregá-las no processo de ensino e de aprendizagem. E dentro desse contexto se insere o debate da formação presencial versus a distância; hoje, no Brasil, a maior parte dos cursos de formação de professores se dá pela modalidade do ensino a distância (EaD). E o pior: em muitas situações, em instituições que não procuram resguardar o compromisso com a qualidade, aplicando um ticket médio bem inferior ao que se espera numa formação séria e de boa qualidade. Por isso defendo a criação de um Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) específico para cursos com currículos inovadores no campo da formação de professores.

Por fim, todas as vezes em que o tema vem à baila, cria-se um clima pouco favorável a uma discussão serena e equilibrada, tendo como referência o que a ciência e as pesquisas nos vêm mostrando para uma formação docente que dialogue com o futuro do aluno. Não podemos fazer disso uma cruzada, mas uma oportunidade para construir formações inovadoras e criativas tão necessárias para um mundo disruptivo.

 

Sobre o autor:

Mozart Neves Ramos é titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira da USP de Ribeirão Preto e Professot emérito da UFPE e faz parte do Conselho Consultivo da Bett Brasil. 

Artigo publicado no Jronal do Comércio de Pernambuco - https://digital.jc.ne10.uol.com.br/edicao?ed=1218

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