Quando o futuro ficou pequeno
O letramento digital e midiático não é só saber usar ferramentas: é aprender a ler o mundo quando a comunicação passa por telas, plataformas, algoritmos e inteligências artificiais. Nesse ponto, a ficção científica tem um papel mínimo, mas decisivo: manter viva a curiosidade. Ela permite perguntar não apenas “como essa tecnologia funciona?”, mas “que tipo de sociedade ela ajuda a construir?”.
Há algo estranho no nosso tempo. Nunca tivemos tanta tecnologia ao redor e, ainda assim, parece que imaginamos menos futuro. Aquilo que antes parecia ficção científica passou a caber no bolso, na escola, no trabalho e na política cotidiana. Quando a realidade fica tecnológica demais, a ficção corre o risco de perder distância. E sem distância, talvez ela deixe de abrir mundos para apenas comentar o mundo em que já estamos presos.
O tempo em que imaginar era atravessar uma porta
Existe uma diferença importante entre prever e imaginar. A ficção científica clássica nunca foi apenas exercício de previsão. Os carros voadores não chegaram, as colônias espaciais não viraram rotina e muitos robôs imaginados continuam distantes. Ainda assim, essas obras seguem relevantes porque seu objetivo não era acertar. Era expandir.
Ao deslocar a humanidade para outros planetas, outras sociedades ou outras formas de inteligência, a ficção científica criava distância suficiente para que o presente fosse visto de outro ângulo. Antes que uma tecnologia exista, ela precisa ser imaginável. Antes que uma sociedade aceite uma mudança, precisa ser capaz de concebê-la.
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Quando o presente começou a correr rápido demais
Nas últimas décadas, a relação entre imaginação e tecnologia mudou. Durante boa parte do século XX, havia tempo entre descoberta científica e incorporação ao cotidiano. Hoje, esse intervalo parece cada vez menor.
Uma inovação surge, vira notícia, transforma mercados e altera hábitos em poucos meses ou anos. Talvez por isso o futuro tenha deixado de parecer um continente distante. Ele se parece mais com a próxima atualização de software.
Quando o horizonte encurta, a própria ficção muda de função. Em vez de explorar o desconhecido, passa a interpretar aquilo que já está surgindo diante de nós: menos “o que poderemos nos tornar?” e mais “o que essa tecnologia fará conosco?”.
Quando a tela chega antes do laboratório
Mas há também o outro lado, o que acertou: a forma cultural da tecnologia antes de sua existência material. Muito antes de tablets, chamadas por vídeo, assistentes digitais, interfaces gestuais e dispositivos móveis fazerem parte da vida cotidiana, o cinema e a televisão já tinham dado a essas tecnologias uma aparência, uma cena de uso e um lugar no imaginário social.
Por isso, a ficção científica não deve ser medida apenas pelo que acertou ou errou. Seu papel mais profundo é tornar o impossível discutível. Antes que uma tecnologia seja construída, ela precisa ser desejada, temida, debatida ou ao menos reconhecida como possibilidade. A arte, justamente por não estar presa às exigências imediatas da viabilidade técnica, muitas vezes chega primeiro: não entrega o aparelho pronto, mas entrega a primeira imagem mental de como ele poderia existir.
Black Mirror e o futuro que chegou cedo demais
É difícil encontrar exemplo melhor dessa transformação do que Black Mirror. Embora seja frequentemente apresentada como ficção científica, sua matéria-prima raramente está em tecnologias impossíveis. Seu foco está em tendências reconhecíveis: vigilância digital, reputação online, inteligência artificial, hiperconectividade e dependência tecnológica.

Foto: Divulgação/Netflix
O desconforto nasce justamente dessa proximidade. O espectador não observa um século distante. Observa uma versão levemente exagerada do próprio presente. Ao longo dos anos, tornou-se comum ouvir que certos episódios “viraram realidade”. Talvez a questão seja outra: a série nunca esteve tão distante da realidade quanto parecia.
Por trás das telas, dos algoritmos e dos dispositivos, Black Mirror fala sobre medo, pertencimento, solidão, poder e reconhecimento. A tecnologia é o cenário. A questão continua sendo humana.
O desaparecimento da fantasia
Ao ganhar capacidade de interpretar o presente, a ficção científica talvez tenha perdido parte de sua capacidade de criar estranhamento. Grande parte das narrativas atuais amplia tendências existentes: observa uma direção e tenta imaginar onde ela termina.
O problema é que projetar tendências não é o mesmo que inventar futuros. Projetar prolonga uma linha. Imaginar muda sua direção. Grandes rupturas culturais, científicas e tecnológicas raramente surgem de projeções lineares; nascem de ideias que, no início, parecem improváveis ou absurdas.
É aí que a fantasia se torna importante. Não como fuga da realidade, mas como ferramenta intelectual. Ela cria espaço para que hipóteses impossíveis existam tempo suficiente para serem exploradas. Sem esse espaço, a imaginação vira apenas administração sofisticada do presente.
Ficção científica, PISA e letramento para o futuro
Essa discussão parece literária, mas dialoga diretamente com educação. O PISA 2022 avaliou pensamento criativo como capacidade de gerar ideias diversas e originais, além de avaliar e melhorar ideias em diferentes contextos. Já o PISA 2029 terá como domínio inovador o letramento midiático e em inteligência artificial, voltado à capacidade de avaliar credibilidade, qualidade e finalidade de conteúdos digitais e agir de modo informado e ético em ambientes mediados por mídia e IA.
Isso reforça uma ideia central: conhecer tecnologia não é suficiente. É preciso compreender impactos, interpretar informações, identificar mediações e questionar narrativas. Mas existe uma camada adicional: além de interpretar o mundo, precisamos continuar imaginando mundos.
Nesse sentido, a ficção científica pode funcionar como laboratório do devir. Ela ajuda estudantes a perceberem que tecnologias não são fenômenos naturais; são construções humanas carregadas de escolhas, interesses e consequências. Mais do que perguntar se uma informação é verdadeira ou falsa, permite perguntar que tipo de sociedade estamos ajudando a construir.
Talvez sua principal contribuição para o século XXI não seja prever o amanhã. Seja lembrar que ele continua em aberto. Em uma época marcada pela aceleração tecnológica, pelo excesso de informação e pela sensação constante de urgência, imaginar continua sendo uma competência estratégica. Porque sociedades que apenas se adaptam ao presente podem sobreviver. Mas são as sociedades que conseguem imaginar alternativas que efetivamente criam futuro.
Sobre o autor:
-
Francisco Tupy
Doutor pela Universidade de São Paulo com ênfase em videogame
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