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Realidade ou ficção? O desafio da busca pela verdade na era das deepfakes

Redação Bett Blog
Realidade ou ficção? O desafio da busca pela verdade na era das deepfakes
Foto: Bett Brasil
Francisco Tupy alerta para crise de credibilidade e defende letramento digital como resposta ao avanço da IA

A rápida evolução da inteligência artificial tem intensificado os desafios relacionados à construção da confiança no ambiente digital sobre o que é verdade ou não. Nesse cenário, o doutor pela Universidade de São Paulo, Francisco Tupy, alertou para o uso crescente de deepfakes em situações cotidianas, durante palestra na Bett Brasil 2026.

O pesquisador destacou que já existem perfis que recriam entrevistas com pessoas falecidas ou utilizam imagens manipuladas para comentar acontecimentos atuais, ampliando o alcance da desinformação.

“Hoje, não estamos falando apenas de manipulação de imagem. Vozes também podem ser clonadas e alteradas, podendo colocar qualquer pessoa em situações de constrangimento”, explicou.

Segundo Tupy, o próprio conceito de deepfake vem sendo ampliado e, em alguns contextos, começa a ser substituído por “experiências sintéticas”, refletindo o avanço tecnológico que permite recriar não apenas rostos e falas, mas experiências completas.

Ele cita, por exemplo, protótipos de realidades multissensoriais, capazes de simular sensações físicas. “Já existem tecnologias em que você pode comer um biscoito de arroz e sentir gosto de creme de avelã. Isso mostra o nível de imersão que estamos alcançando”, afirmou.

Apesar da sofisticação atual, Tupy lembra que a manipulação de imagens não é um fenômeno novo. Ele resgata exemplos históricos, como edições feitas por Getúlio Vargas em fotografias oficiais ou a remoção de figuras políticas em fotos de Joseph Stalin, na década de 1920.

A diferença, de acordo com ele, está na escala e na velocidade. “O que antes exigia tempo e técnica, hoje pode ser feito de forma automatizada e em minutos”.

Crise de confiança e impacto direto na educação

O avanço dessas tecnologias tem provocado o que Tupy define como uma crise de confiança. “A realidade pode ser gerada. A confiança, não”, afirmou. Na prática, isso se reflete em um ambiente onde conteúdos falsos ganham credibilidade, enquanto informações verdadeiras passam a ser questionadas.

O pesquisador aponta que esse cenário impacta diretamente a dinâmica escolar. “O absurdo começa a ser considerado, o óbvio passa a ser questionado. A autoria vira dúvida, o aluno deixa de confiar e o professor perde autoridade”, disse.

Tupy na Arena Startups

Francisco Tupy durante painel na Arena Startups. Foto: Bett Brasil.

Diante desse contexto, ele defende que a resposta não está na proibição da tecnologia, mas na construção de conhecimento sobre ela. “Se não democratizarmos o entendimento sobre essas ferramentas, ficaremos cada vez mais vulneráveis”, alertou.

Tupy recomenda a abordagem do tema dentro das escolas por meio de um diálogo saudável, ensinando os alunos a fazer uma triagem do conteúdo disponível, com debate qualificado, provas e uma linha do tempo do material apresentado, instigando assim o senso investigativo nos estudantes.

Caminhos: educação, governança e uso responsável

Para enfrentar esse cenário, é fundamental estabelecer governança e estratégia no uso desse tipo de inteligência artificial, de modo que esse recurso também possa ser benéfico para a sociedade.

Entre as soluções possíveis, ele cita o uso de tecnologias como NFTs (sigla em inglês para Non-Fungible Token ou Token Não Fungível) para autenticação de imagens e o desenvolvimento de “gêmeos digitais” para aplicações positivas, como monitoramento de saúde à distância.

No entanto, reforça que o principal caminho ainda é educacional. “O letramento digital precisa avançar. É necessário ensinar os alunos a analisar o conteúdo que consomem, entender quem produziu, como foi produzido e com qual intenção”, explicou.

Tupy deixou um alerta claro: a tecnologia seguirá avançando, mas a capacidade de interpretar e confiar nas informações dependerá cada vez mais da educação de cada indivíduo.

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