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Recompor aprendizagens é devolver sentido à escola

por Marco Saliba, professor do Grupo Eureka
Recompor aprendizagens é devolver sentido à escola
Imagem gerada por IA
Recompor aprendizagens é como retomar um jogo a partir da fase em que o estudante realmente está, e não daquela em que imaginamos que ele deveria estar

Ser professor é cotidianamente pensar em Educação. Outro dia, observei meu sobrinho tentando passar de fase em um videogame. Ele errava, tentava de novo, errava outra vez, insistia. Estava concentrado, empenhado e envolvido naquele desafio. Até que conseguiu entender o comando certo e avançou.

Eu perguntei: “Por que você não faz isso na escola?”
A resposta veio rápida: “Na escola a gente não pode errar”.

Esse é um retrato de um grande problema educacional: o estudante não entende a jornada que está vivendo. E, pior, aprende que errar é fracassar, quando, na verdade, é parte essencial do aprender.

Passamos a falar mais sobre recomposição das aprendizagens durante a pandemia, mas essa necessidade não nasceu ali. Ainda nos anos 1990, eu já encontrava alunos em séries avançadas com dificuldades de conteúdos básicos de etapas anteriores. Sem tecnologia, eu anotava em fichas as dificuldades do estudante e trabalhava aquilo que precisava recompor.

A pandemia apenas ampliou e escancarou uma realidade que já existia. O déficit de aprendizagem não é consequência dela, mas de um modelo escolar que deixou de acompanhar o estudante e passou a funcionar distante da sua realidade.

Hoje ainda encontramos jovens no Ensino Médio — e até na universidade — com dificuldades de alfabetização ou de habilidades básicas dos anos iniciais. Não porque não sejam capazes, mas porque o sistema não conseguiu identificar, diagnosticar e recompor suas aprendizagens no momento certo.

Recompor aprendizagens é como retomar um jogo a partir da fase em que o estudante realmente está, e não daquela em que imaginamos que ele deveria estar. Significa entender seu ponto de partida e criar condições para que avance, ganhando confiança a cada conquista.

O desafio é tornar esse acompanhamento possível em salas numerosas e atravessadas por diferentes realidades. A escola pública recebe estudantes com trajetórias diversas, experiências marcadas por desafios sociais, emocionais e familiares.

É justamente aqui que o papel do professor deve ser central. Ele é o mediador dessa experiência. É quem transforma conteúdo em significado, erro em oportunidade e dificuldade em estratégia de avanço. Nenhuma tecnologia substitui esse olhar. Ao contrário: ferramentas digitais e inteligência artificial só fazem sentido quando ampliam a capacidade do professor de diagnosticar, personalizar e acompanhar cada estudante.

Se bem utilizadas, essas ferramentas permitem planos de aprendizagem individualizados, ajudam a identificar lacunas específicas e oferecem caminhos para que o estudante avance sem que a reprovação seja a resposta automática.

Quando esse estudante encontra materiais e práticas pedagógicas pensadas a partir de outra realidade — muitas vezes inspiradas em modelos da escola privada — ele vivencia mais uma experiência de fracasso. A atividade está acima do seu nível atual, ele não consegue acompanhar, é reprovado e passa a acreditar que o problema está nele.

O estudante precisa poder errar como faz no videogame. Precisa testar, experimentar, tentar novamente sem medo.

Também precisamos abrir os muros da escola para o mundo real. Os jovens de hoje têm linguagens próprias, interesses próprios e formas diferentes de se relacionar com o conhecimento. São extremamente inteligentes, conectados e humanamente sofisticados. O problema não é a juventude. O problema é quando a escola insiste em modelos que já se provaram ineficazes.

Todo aluno traz consigo conhecimentos, experiências e repertórios próprios. O papel da escola é partir desse ponto para construir novos aprendizados e permitir que ele experimente o sucesso. Porque ninguém aprende sob pressão ou por obrigação, mas quando faz sentido.

Há, porém, um aspecto que raramente discutimos: muitos alunos atravessam toda a vida escolar sem compreender a própria trajetória de aprendizagem.

Dizemos que estão “atrasados”, mas atrasados em relação a quê? Pouco explicamos quais caminhos estão percorrendo, o que já conquistaram ou quais etapas ainda precisam superar. No videogame, essa lógica é clara: cada fase apresenta desafios definidos, objetivos visíveis e a sensação constante de progresso. Na escola, muitas vezes, essa jornada permanece difusa.

Recompor aprendizagens passa justamente por tornar o percurso visível. Quando o estudante entende sua evolução, reconhece avanços e percebe sentido no que aprende, assume o protagonismo do próprio processo. E é o professor quem torna isso possível, mediando essa caminhada, ajudando o aluno a compreender onde está, para onde pode ir e quais passos precisa dar para avançar.

Colocar o estudante no centro da experiência educativa significa escutá-lo, confiar nele e permitir que se sinta dono da escola. Já visitei instituições em que os alunos cuidavam das redes sociais, produziam conteúdos, apresentavam projetos com autonomia e orgulho. Ali, a aprendizagem acontecia porque havia pertencimento e professores que souberam abrir espaço para isso.

A recomposição das aprendizagens, portanto, não será resolvida apenas com ações pontuais. Ela exige uma mudança mais profunda: redesenhar a escola para que o ato de aprender volte a fazer sentido, com o professor no centro, como mediador do aprendizado, e o estudante como protagonista.

Recompor aprendizagens é, antes de tudo, recompor o vínculo entre o estudante, o professor e a escola. E isso começa quando entendemos algo simples: a educação só funciona quando o aluno quer jogar esse jogo e acredita que pode vencer cada fase.

Sobre o autor:


*Conteúdo sob responsabilidade exclusiva do anunciante.
**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Bett Brasil.

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