Summit IA debate aplicações práticas e impactos da inteligência artificial na educação
A inteligência artificial ganhou protagonismo na 31ª edição da Bett Brasil. Pela primeira vez, o evento promoveu o “Summit IA na Educação”, nos dias 5 e 6 de maio, no Expo Center Norte, reunindo especialistas, educadores e lideranças para discutir aplicações práticas os impactos da tecnologia no futuro do ensino.
Com curadoria conjunta da Bett Brasil e da plataforma de IA educacional AI4School, da Conexia Educação, o Summit trouxe debates com olhar voltado para o cenário educacional, abordando desde aplicações práticas em sala de aula até questões éticas e os limites da automação no processo de aprendizagem.
Na abertura do encontro, a diretora-geral da Bett Brasil, Claudia Valério, destacou que a educação vive um ponto de virada histórico. Segundo ela, a discussão já não está mais centrada em escolher usar ou não a inteligência artificial, mas em compreender como incorporá-la de forma responsável e estratégica ao ambiente escolar.
“A inovação só faz sentido quando acompanhada de mediação, contexto e responsabilidade”, afirmou Claudia. Ao colocar a IA no centro da programação, a proposta do Summit foi justamente ampliar o debate sobre o impacto direto da tecnologia no ensino, sem perder de vista a dimensão humana da aprendizagem.
Para o CEO da Conexia Educação, Sandro Bonás, o principal diferencial do Summit foi transformar escolas e educadores em protagonistas dessa conversa. “Temos visto esse assunto acontecer em muitos congressos de tecnologia e negócios, mas não em eventos de educação. Nestes dois dias debatemos os dilemas, as proteções, os riscos, mas também como podemos mudar a vida dos estudantes a partir de uma tecnologia tão revolucionária”, afirmou.


Auditório exclusivo na Bett Brasil colocou a IA no centro das discussões. Foto: Bett Brasil.
Segundo Bonás, a parceria com a Bett Brasil contribuiu para reunir especialistas relevantes e um público altamente engajado. “Acredito que os educadores e professores que estiveram no Summit voltaram para suas escolas com técnicas, ferramentas e processos capazes de transformar a vida de muitos alunos e ajudar essa geração a ter mais sucesso no futuro”, completou.
A programação do Summit foi dividida em dois grandes eixos temáticos. No primeiro dia, o foco esteve em “IA e o Novo Cenário da Educação”. Já o segundo aprofundou o debate em “Estratégias, Práticas e Futuros Possíveis”, trazendo experiências concretas e reflexões sobre o impacto da inteligência artificial no longo prazo.
A mediação dos painéis ficou a cargo do comunicador e apresentador Marcelo Tas, que destacou o caráter humano e provocador dos encontros. Para ele, o Summit foi uma oportunidade de transformar um debate muitas vezes abstrato em uma experiência de troca real entre especialistas, educadores e profissionais da área.
“Foi uma experiência muito física, de encontro mesmo, de estar frente a frente com assuntos que estão dentro da nossa cabeça, mas que ganham outra dimensão quando encontramos especialistas e as pessoas que os questionam, para trazer novas informações sobre um tema tão complexo quanto necessário. Saio do Summit com muito aprendizado”, afirmou Tas.
Lançamento de relatório da OCDE
Um dos momentos mais relevantes da programação foi o lançamento do relatório da OCDE - Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Agora, o Brasil passa a ter acesso gratuito, em português, ao principal documento internacional sobre inteligência artificial generativa na educação.
Durante o Summit IA na Educação, o Instituto Salto apresentou a tradução integral da OCDE Digital Education Outlook 2026: Exploring Effective Uses of Generative AI in Education. A obra reúne em 13 capítulos com evidências comparadas, estudos de caso e entrevistas com pesquisadores e gestores de diferentes países sobre o uso da IA generativa na educação.
A apresentação do material foi conduzida por Rafael Parente, diretor-executivo do Instituto Salto, e Lucia Dellagnelo, diretora-Adjunta de Educação e Habilidades da OCDE e doutora por Harvard.
“A escola brasileira já está atravessada pela inteligência artificial. O que faltava era uma base pública, rigorosa e acessível, em português, para orientar decisões responsáveis de gestores e lideranças educacionais”, destaca Parente.
Lucia Dellagnelo destacou que o uso de ferramentas de IA generativa, por si só, não garante aprendizagem — e pode, inclusive, comprometer a compreensão quando utilizado sem intencionalidade pedagógica. “Utilizar IA generativa para realizar tarefas não é o mesmo que aprender com ela. O ganho educacional acontece quando há mediação qualificada e desenho pedagógico adequado, conduzido pelo professor”, explica.

Lançamento de relatório sobre uso da tecnologia na educação. Foto: Bett Brasil.
Segundo ela, ferramentas de uso geral podem trazer oportunidades importantes, como abordagens mais conversacionais, flexíveis e adaptáveis a diferentes disciplinas. No entanto, ainda apresentam desafios relevantes, como erros ocasionais (as chamadas “alucinações”), e a necessidade de tornar as experiências mais engajadoras para promover aprendizagem real.
Entre as principais lições destacadas pelo relatório, está a importância de manter o professor no centro do processo educativo. “Algoritmos podem sugerir caminhos, mas são os educadores que precisam decidir. Nenhum plano de aula com IA substitui o julgamento profissional docente”, reforça Lúcia.
A obra está disponível sob licença aberta CC BY 4.0, e o download pode ser feito por meio deste link. A ideia do estudo é que a partir dele sejam criadas políticas públicas para o uso responsável da IA, o investimento na formação de professores, o avanço em regulação para proteção de dados e o estímulo à pesquisa sobre os impactos da tecnologia na aprendizagem.
“Estamos entrando em uma fase de ‘educação aumentada por IA’. Isso significa que a tecnologia deixa de ser acessório e passa a integrar a estrutura do ensino, exigindo revisão de currículo, avaliação e práticas pedagógicas”, completou Rafael Parente.
Ética, protagonismo docente e futuros possíveis
Outro destaque foi a palestra do professor e especialista em inovação Gil Giardelli, que propôs uma reflexão sobre a convivência entre humanos e inteligência artificial. Segundo ele, mais do que compreender a tecnologia, será necessário aprender a coexistir com ela em uma nova lógica econômica e social impulsionada pela chamada “IA economy”.

Giardelli refletiu sobre a convivência entre humanos e inteligência artificial. Foto: Bett Brasil.
No entanto, esse avanço não ocorre sem efeitos colaterais. “O aumento da produtividade convive com o crescimento de quadros de esgotamento. Nunca vimos tantos casos de burnout como agora”, alertou.
O especialista também reforçou que esse debate passa inevitavelmente pela ética. Para Giardelli, embora a tecnologia seja neutra, seu uso não é, e exige limites claros. Ele cita exemplos que já desafiam essas fronteiras, como empresas que trabalham na desextinção de espécies e no desenvolvimento de rostos artificiais com expressões humanas. “Isso nos leva a uma pergunta central: até onde devemos usar a tecnologia?”, provocou Gil.
O papel da IA na educação
A programação também avançou para um dos pontos mais sensíveis da atualidade: quem toma as decisões na era da inteligência artificial? O painel abordou temas como ética, vieses algorítmicos e o risco de delegar decisões pedagógicas à tecnologia, debates que acompanham o avanço acelerado da IA no mundo todo.
Ao longo da conversa, com Guilherme Cintra, da Fundação Lemann; Américo N.Amorim, da NY University/Escribo Educação do Seu Jeito e Gi Santos, consultora pedagógica de inovação do Instituto Escolas Criativas, foi discutido como manter o professor no centro da mediação do aprendizado, evitando a delegação excessiva de decisões para a tecnologia.
“O que a IA pode permitir são bons diálogos, boas conversas. Não tem nada mais ancestral que a tecnologia do diálogo. Se confunde o domínio do conhecimento, a saber ensinar, mas a IA ainda não se provou ser maior que o professor e não sei se queremos que ela se prove”, comentou Guilherme Cintra.

Guilherme Cintra durante painel no Summit IA. Foto: Bett Brasil.
Outro tema em destaque foi o papel da liderança escolar diante de um cenário em que inteligência artificial e análise de dados passam a fazer parte do cotidiano pedagógico. O painel trouxe experiências práticas sobre a adoção da IA no ensino fundamental, discutindo desde decisões estratégicas até formação de professores, personalização da aprendizagem e desafios éticos.
A programação reuniu ainda nomes como Mariana Ochs, coordenadora de educação do Instituto Palavra Aberta; Paulo Silveira, co-fundador da Alura; Alessandra Borelli, advogada especialista em Direito Digital, Proteção de Dados e Inteligência Artificial; Rodrigo Nejm, especialista em educação digital do Instituto Alana; e Isabel Amigo, gerente de Gestão da Inovação no Ceibal, no Uruguai.
O Summit de IA na Educação deixou claro que, se a inteligência artificial inaugura novas possibilidades para a educação, o futuro do ensino continuará dependendo, sobretudo, da capacidade humana de interpretar, contextualizar e criar conexões significativas.
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