Todas as inteligências em nós — e a urgência de agir agora!
Ao observar o atual ecossistema da educação, uma inquietação cada vez mais difícil de silenciar ganha voz: será que estamos preparando os alunos de hoje para um mundo que já deixou de existir?
O descompasso é evidente — e ele não é essencialmente tecnológico, mas sim humano. No cotidiano das escolas, é perceptível a insistência em reproduzir modelos pedagógicos que já não conversam com a realidade e pertencem a um passado que já se dissolveu.
E isso não acontece por falta de boa intenção. Acontece porque mudar dá trabalho. E, muitas vezes, dá medo.
Talvez o maior desafio da educação contemporânea não seja aprender a usar novas ferramentas, mas ter a coragem de revisar certezas, reconhecer limites e, sobretudo, abrir espaço para que novas formas de aprender e ensinar possam ser praticadas.
Quando a escola se vê diante de problemas difíceis, a tendência é buscar soluções rápidas, uma metodologia “da moda”, uma plataforma nova ou uma cartilha pronta.
Há, no entanto, um ponto que precisa ser encarado com honestidade: muita coisa que trava a educação não é falta de ferramenta — é falta de conversa.
Falta diálogo entre pessoas, entre áreas, entre o pedagógico e a gestão, entre a escola e as famílias, entre a intenção de fazer e o que, de fato, se realiza na prática.
E isso aparece o tempo todo. A escola compra tecnologia, mas não combina o básico: Para quê? Como? Com qual propósito pedagógico? Com qual preparo de professor? Com qual tempo de implementação? Aí vira frustração. E a frustração vira resistência.
Um exemplo simples e prático: o bullying não surge do nada. Ele nasce de uma cultura em que o outro se transforma em alvo. Envolve a falta de pertencimento, baixa empatia, omissão adulta e um ambiente onde humilhar passa a ser visto como “normal”. Mesmo assim, insistimos em tratar apenas a consequência: protocolos, punições, cartilhas, palestras pontuais. Apaga o incêndio. Mas não muda o clima que produz o fogo.
Foi a partir dessa constatação que chegamos ao tema da Bett Brasil 2026: “Inteligências Individuais, Coletivas e Artificiais: todas em nós, agora!”. Ele nasce de um processo de escuta atenta, de observação contínua do cenário educacional e da compreensão de que estamos em um momento singular na história da educação em que as múltiplas inteligências se manifestam ao mesmo tempo: a singularidade de cada indivíduo, a força do coletivo e a potência das tecnologias digitais e artificiais.
Na 31ª edição da Bett Brasil, o maior evento de Inovação e Tecnologia para a Educação da América Latina, vamos refletir sobre as múltiplas expressões da inteligência e suas aplicações no contexto educacional: InteliGENTE (individuais), HumaNÓS (coletivas), InteligêncIA (artificiais) e Diálogos de Inteligências (todas em nós).
Reconhecer essas inteligências isoladamente já abre caminhos de transformação. Mas é no diálogo entre elas que surgem as reais possibilidades de mudança para reinventar práticas pedagógicas, renovar a gestão escolar, ampliar a inclusão e criar modelos inovadores de negócios educacionais. E é por isso que o agora é parte central do tema.
O “agora” não é uma palavra de efeito — é um alerta. Porque a educação não está sendo desafiada apenas pela tecnologia em si, mas por um fenômeno muito mais complexo: o avanço acelerado do digital que ocorre, simultaneamente, ao crescimento do adoecimento emocional das pessoas.
E esse desequilíbrio não é abstrato: ele está nos números e no cotidiano. Os dados sobre burnout e transtornos mentais no trabalho não são estatísticas frias; são sintomas de um modelo que perdeu o eixo. Desde 1º de janeiro de 2025, o Brasil adotou oficialmente a CID-11, que classifica a Síndrome de Burnout (ou síndrome do esgotamento profissional) como uma doença ocupacional, ou seja, diretamente relacionada ao trabalho.
Uma matéria do jornal Folha de S. Paulo de janeiro deste ano revelou que dados do Ministério da Previdência Social (MPS) apontam alta de 493% nos auxílio-doença por esgotamento no trabalho e falta de lazer, saltando de 823 casos em 2021 para 4.880 em 2024. Nos seis primeiros meses de 2025, os registros chegaram a 3.494, representando 71,6% dos afastamentos do ano anterior.
Em 2024, o INSS concedeu 472,3 mil auxílios-doença relacionados à saúde mental, o que inclui depressão, ansiedade e outras síndromes, de um total de 3,6 milhões de afastamentos.
Em 2025, os transtornos por saúde mental geraram 271.076 afastamentos de janeiro a junho, de um total de mais de 2 milhões de auxílios e já representam 1 em cada 7 afastamentos, aproximando-se de concessões por problemas ósseos e musculares que lideram as doenças do INSS.
A escola, um espaço de formação humana, não está imune. Ela reflete esse cenário — e, às vezes, o amplifica. Uma reportagem no site da revista Você S/A, em julho de 2025, mostrou que mais de 150 mil professores da rede pública brasileira foram afastados de suas funções em 2023 por motivos relacionados à saúde mental, segundo levantamento da CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação), com base em dados do INSS.
Isso nos confronta com uma pergunta incômoda, mas necessária: como formar cidadãos para um mundo complexo se nós, educadores, ainda tentamos nos estruturar no básico das habilidades socioemocionais?
É aqui que o papel de gestores e líderes se torna decisivo. E vale dizer de forma direta: liderar a escola hoje é lidar com a complexidade sem se esconder atrás de respostas prontas. Existe uma ansiedade legítima por agir. Só que agir sem compreender o contexto, normalmente, faz a escola repetir o procedimento antigo esperando um resultado diferente.
Para quem vive o dia a dia da escola, não há manual definitivo. Não existe curso que ensine “a forma certa” de integrar inteligências humanas e artificiais.
O que existe é uma necessidade urgente de criar cultura de aprendizagem dentro da própria instituição: testar, ajustar, aprender com erro e criar repertório coletivo.
E há um ponto que faço questão de sempre repetir: hoje, é impossível saber tudo. Dizer “não sei” não é sinal de fraqueza; é um gesto de lucidez, que abre espaço para a aprendizagem.
O problema é quando a escola finge que sabe, decide no automático e só percebe mais tarde que o custo dessas decisões foi alto.
Aprender junto deixa de ser uma opção e passa a ser uma estratégia essencial. A verdade é que ninguém dá conta disso sozinho — e tudo bem. O desafio está em construir uma escola que aprende com humildade, clareza e coragem. A partir daí, as perguntas também se transformam.
Esse movimento exige autoconhecimento e coragem para responder questões essenciais: que tipo de ambiente estamos construindo para que professores e estudantes possam aprender de verdade, sem medo de errar? Qual é o tempo que damos para a escuta, para a reflexão, para a inovação?
No fundo, a provocação é uma só: não dá mais para a escola viver de discurso moderno com prática antiga. É hora de alinhar fala e ação.
As inteligências individuais, coletivas e artificiais existem. Mas só se tornam transformação quando conseguem conversar entre si — e isso não acontece naturalmente. Isso é projeto. Isso é liderança. Isso é cultura.
A Bett Brasil se propõe a ser esse espaço de encontro, escuta e construção coletiva. Um convite ao diálogo verdadeiro, sem respostas prontas, mas com a disposição genuína de aprender juntos. Porque todas as inteligências estão em nós. E o tempo de agir com consciência, responsabilidade e humanidade é agora!
Sobre a a autora:
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Adriana Martinelli
Diretora de Conteúdo da Bett Brasil e Consultora de Educação e Inovação
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