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As três maturidades que determinam o sucesso de uma edtech no setor público

por Guilherme Cintra
As três maturidades que determinam o sucesso de uma edtech no setor público
Foto: Freepik
Produto, implementação e absorção precisam evoluir de forma coordenada para que uma tecnologia educacional gere impacto real nas redes de ensino

Quando falamos de tecnologia educacional, o foco costuma recair sobre o produto e sua qualidade. Vivemos um momento de acelerado desenvolvimento tecnológico, com soluções cada vez mais sofisticadas. No entanto, essa é apenas uma parte do que determina o sucesso de uma tecnologia na educação.

Implementar edtechs no setor público costuma ser um desafio muito maior do que desenvolver bons produtos. A partir de experiências pessoais e trocas com diferentes atores envolvidos na implementação e manutenção dessas soluções, passei a organizar esse desafio em três dimensões que precisam caminhar juntas para que uma tecnologia gere impacto. Chamo esse modelo de “Três Maturidades: Produto, Implementação e Absorção”.

A primeira delas é a maturidade de produto. Muitas soluções são concebidas para a realidade da educação privada e, posteriormente, apenas adaptadas. No entanto, uma edtech precisa responder aos desafios e às condições concretas da rede pública.

Os dados do Censo Escolar de 2025 mostram avanços importantes, com a conectividade chegando a 94,5% das escolas públicas brasileiras. Mas esse dado esconde uma realidade mais complexa: de acordo com o MEC, apenas 74% contam com conexão adequada para fins pedagógicos.

O Censo aponta ainda que menos da metade das escolas públicas, 46%, possui computadores em quantidade considerada adequada, de acordo com referencial do Ministério da Educação (MEC). Por isso, um bom produto precisa funcionar em contextos diversos, inclusive offline e em diferentes dispositivos.

Essa maturidade envolve, no mínimo, duas dimensões: responder às condições reais da rede e entregar valor educacional, gerando benefícios concretos para estudantes e professores no cotidiano escolar. Avaliar se isso acontece, porém, está longe de ser simples. Diferentemente de um aplicativo comercial, cujo sucesso pode ser medido por métricas de engajamento e conversão, uma edtech precisa demonstrar impacto na aprendizagem, um resultado que aparece lentamente, depende de múltiplos fatores e dificilmente pode ser atribuído apenas à tecnologia.

A segunda maturidade é a de implementação. Um produto excelente ainda pode fracassar se não houver condições para colocá-lo em prática. Implementar bem significa entender as características do território, formar os profissionais que utilizarão a ferramenta, garantir conectividade minimamente estável e, quando possível, contar com atores que façam a ponte entre a tecnologia e a rede de ensino.

Um desafio recorrente é a distância entre as equipes pedagógicas e as de tecnologia das secretarias de Educação. Quando esses dois mundos não conversam entre si, a ferramenta pode chegar às escolas sem um propósito pedagógico claro. Há também desafios na própria contratação de soluções inovadoras. O Marco Legal das Startups abriu caminhos para contratações mais ágeis pelo poder público, focadas no resultado almejado, mas esses instrumentos ainda são pouco utilizados diante do potencial de inovação existente.

Por fim, existe a maturidade de absorção, aquilo que acontece depois da fase de implementação. Na rede pública, quem sustenta essa etapa é o próprio governo; na rede privada, a escola. Trata-se da capacidade de manter uma tecnologia funcionando e gerando valor sem depender continuamente do fornecedor. Essa costuma ser a maturidade mais negligenciada, porque exige algo que nenhuma tecnologia resolve sozinha: tempo, formação continuada e confiança construída entre quem usa a ferramenta no cotidiano escolar.

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Observo com frequência que, quanto maior a relevância pedagógica de um produto, mais longo tende a ser o tempo necessário para que sua implementação se consolide. Isso muda a forma como avaliamos o sucesso, ou o fracasso, de uma edtech. Sem compreender esse contexto, corremos o risco de criar expectativas incompatíveis com aquilo que a tecnologia pode entregar e com o tempo necessário para produzir resultados.

Vivi isso de perto ao participar da implementação de uma solução de gestão de frequência escolar no município do Rio de Janeiro. Embora o produto fosse tecnicamente simples, isso não significava que o problema da frequência seria resolvido em poucos meses. O primeiro passo era coletar dados para, a partir deles, gerar planos de ação e, só então, observar os resultados. A tecnologia ajudava a criar as condições para enfrentar o problema, mas não eliminava as etapas necessárias para chegar ao resultado esperado. Sem alinhamento prévio de expectativas, gera-se frustração entre gestores, que podem não considerar a complexidade do cotidiano das escolas.

Como resolver, então, esse descompasso entre o que se promete e o que se entrega? O caminho passa por gerar mais evidências, ampliar pesquisas em diferentes contextos e entender quais soluções funcionam melhor em cada realidade do país. Passa também por combater equívocos sobre o que determinada tecnologia é capaz de fazer e por perguntar sempre se as evidências que sustentam um produto são realmente sólidas.

Precisamos, como setor, construir mais bens públicos sobre esse tema, como referências, critérios e evidências que possam apoiar decisões de governos e redes de ensino. Já existem experiências internacionais que merecem atenção.

Na Índia, a EdTech Tulna, desenvolvida pelos institutos de tecnologia IIT Bombay e IIT Delhi, criou uma estrutura independente para avaliar a maturidade de produtos educacionais. Hoje, esse modelo orienta compras públicas em estados como Haryana, Uttar Pradesh e Madhya Pradesh, contribuindo para US$ 118 milhões em aquisições de tecnologia educacional. Mais do que o volume de recursos, chama atenção a existência de um diagnóstico público e comparável, que torna as decisões de compra mais objetivas e menos dependentes de percepções individuais. É esse tipo de bem público que ainda faz falta ao Brasil.

Olhando para o Brasil, um exemplo interessante é o do Ness-Ufal, que neste ano lançou o instituto IA.Edu e a primeira Cátedra Unesco brasileira dedicada à inteligência artificial desplugada, ou seja, soluções concebidas para funcionar mesmo em escolas com conectividade precária ou inexistente. O diferencial está no modelo de atuação. Antes de desenvolver qualquer solução, o instituto diagnostica a realidade da rede e, a partir desse diagnóstico, cria em até 90 dias um protótipo voltado ao desafio identificado. A ferramenta continua sendo acompanhada e aprimorada até atingir maturidade suficiente para uma implementação em maior escala.

É uma lógica diferente da adotada por muitas edtechs: em vez de desenvolver um produto e depois buscar onde ele se encaixa, parte-se do território para construir uma solução aderente às necessidades da rede. Isso aumenta as chances de que produto, implementação e absorção avancem de forma integrada.

Nenhuma das “Três Maturidades” evolui de forma isolada, e é raro, principalmente no início de um projeto, que todas avancem no mesmo ritmo. Mesmo quando isso acontece, ainda existe uma curva de aprendizagem a ser percorrida por governos, escolas, professores e fornecedores.

Começamos olhando para o produto, mas a experiência mostra que ele é apenas uma das peças da equação. O verdadeiro desafio está em fazer com que produto, implementação e absorção evoluam de forma coordenada. Em um país tão diverso quanto o Brasil, não basta perguntar se uma tecnologia funciona. É preciso entender em quais condições ela funciona, como chega às escolas e se a rede consegue incorporá-la ao cotidiano.

É essa articulação, mais do que a tecnologia isoladamente, que determina se uma inovação será apenas uma boa ideia ou uma transformação efetiva para a educação pública.

Sobre o autor:


*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Bett Brasil.

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