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Inclusão de estudantes autistas exige conhecimento além do diagnóstico

Inclusão de estudantes autistas exige conhecimento além do diagnóstico
Para Kadu Lins, CEO do Instituto do Autismo, compreender as características de cada estudante é fundamental para que a presença na escola se converta em participação e pertencimento


A inclusão de alunos com TEA (Transtorno do Espectro Autista) nas escolas passa por uma etapa anterior às adaptações pedagógicas: a compreensão do autismo. Para o CEO do Instituto do Autismo, Kadu Lins, a falta de conhecimento ainda é uma das principais barreiras para que as instituições construam práticas de inclusão efetivas.

Segundo ele, comportamentos de estudantes autistas podem ser interpretados de maneira equivocada. “Acredito que o principal equívoco seja querer promover inclusão sem, antes, compreender o autismo. Ainda encontramos profissionais que não tiveram contato com o tema e acabam interpretando determinados comportamentos como falta de educação, desinteresse ou indisciplina, quando, muitas vezes, eles estão relacionados às características do próprio transtorno”, afirma.

Outro ponto destacado por Lins é o risco de reduzir o estudante ao diagnóstico. Para ele, compreender o autismo é importante para orientar as práticas, mas não deve substituir o olhar sobre a individualidade de cada pessoa.

“O autismo explica algumas características, mas nunca define quem aquela pessoa é. Antes do diagnóstico, existe um estudante, com talentos, potencialidades, dificuldades e sonhos. A inclusão só acontece quando enxergamos a pessoa por inteiro”, diz.

Da matrícula ao pertencimento

Estar matriculado e frequentar a escola não significa, necessariamente, sentir-se parte dela. Lins diferencia a inclusão, relacionada ao acesso, do pertencimento, que envolve participação, vínculos e reconhecimento dentro da comunidade escolar.

“Um estudante pode estar matriculado na escola, frequentar a sala de aula e, ainda assim, sentir-se isolado”, afirma.

Na avaliação do CEO do Instituto do Autismo, o pertencimento ocorre quando o estudante é ouvido, respeitado, participa das atividades e encontra oportunidades para desenvolver seu potencial. Esse processo envolve não apenas professores, mas também gestores, funcionários, colegas e famílias.

Para que isso aconteça, segundo Lins, a escola precisa desenvolver uma cultura baseada no conhecimento, no respeito às diferenças e na valorização da diversidade. Nesse processo, as adaptações pedagógicas são importantes, mas não suficientes.

O especialista resume a diferença entre inclusão e pertencimento a partir de duas perguntas: “Ele pode entrar?” e “Ele sente que esse lugar também é dele?”. Para Lins, a segunda questão deve orientar a construção de ambientes escolares mais acolhedores.

Continuing Education

Para educadores e gestores que desejam avançar nas práticas de inclusão, a primeira recomendação de Lins é investir em formação. “Minha primeira orientação é simples: estudem. O autismo já faz parte da realidade das escolas e não pode mais ser tratado como um tema opcional. A formação continuada precisa fazer parte da cultura da instituição”, afirma.

A segunda orientação é conhecer o estudante para além do diagnóstico. As características e necessidades podem variar entre pessoas autistas, o que exige atenção à história individual, às potencialidades e aos desafios de cada aluno.

Lins também chama atenção para a necessidade de transformar o conhecimento em ações permanentes. Para ele, iniciativas pontuais não são suficientes para consolidar uma cultura de inclusão dentro da escola.

“Inclusão não acontece em um projeto de um mês ou em uma palestra isolada. Ela se constrói todos os dias, nas pequenas decisões: na forma como o professor ensina, como os colegas convivem, como a escola comunica, adapta, acolhe e acompanha cada estudante”, afirma.

Nesse sentido, a inclusão depende de uma responsabilidade compartilhada. “Não basta ter legislação, boa vontade ou ações pontuais. A inclusão verdadeira exige formação continuada, atualização e disposição para transformar a prática. Compreender o autismo não é um diferencial para quem trabalha com educação; é uma necessidade”, conclui. 

 

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