A narrativa distorcida sobre a tecnologia educacional na Finlândia — e como ela contamina o debate educacional no Brasil
Sistemas educacionais maduros ajustam continuamente suas estratégias — inclusive no uso da tecnologia — para fortalecer a aprendizagem. No Brasil, porém, o exemplo finlandês vem sendo usado como justificativa para questionar o ensino tecnológico, seja por desconhecimento, má interpretação ou simplificação de um tema estrutural. Como essa crítica muitas vezes parte do próprio campo educacional, é necessário restabelecer os fatos.
O que a Finlândia realmente fez
A Finlândia não aboliu a tecnologia nas escolas. Em 2024, restringiu o uso irrestrito de celulares pessoais durante as aulas, permitindo seu uso apenas com finalidade pedagógica.
A medida buscou reduzir distrações e proteger o ambiente cognitivo de aprendizagem. Paralelamente, escolas que haviam migrado excessivamente para tablets e livros digitais passaram a reequilibrar suas práticas, reintroduzindo livros físicos e escrita manual após evidências de impacto negativo na concentração e compreensão leitora.
A tecnologia permanece obrigatória no currículo nacional. Desde 2016, programação, pensamento computacional e produção digital fazem parte da formação básica. Computadores, robótica e cultura maker continuam integrados ao ensino. A Finlândia não removeu a tecnologia da educação. Qualificou seu uso.
Para refletir: faz sentido supor que um país que ensina programação e competências digitais abandonaria a tecnologia — ou isso revela uma interpretação incorreta dos fatos?
Por que essa distorção prejudica o Brasil
A Finlândia construiu um ecossistema tecnológico altamente produtivo. A Nokia faturou €24,9 bilhões em 2023, operando redes em mais de 130 países. Empresas como Supercell e Rovio criaram produtos digitais consumidos globalmente. O país possui mais de 3.800 startups, com um ecossistema avaliado em cerca de €48 bilhões.
O Brasil possui entre 13 mil e 15 mil startups, grande parte focada no mercado interno, enquanto sua infraestrutura digital — sistemas operacionais, nuvem e plataformas — é majoritariamente fornecida por empresas estrangeiras.
A diferença é estrutural: a Finlândia forma capacidade tecnológica. O Brasil ainda depende majoritariamente dela.
Para refletir: usar o exemplo de um país que exporta tecnologia para questionar o ensino tecnológico ajuda o Brasil a produzir tecnologia — ou reforça sua dependência?
Leia também:
- ECA Digital, conexão e regulação: ambiente digital e o que isto impacta no ecossistema escolar
- Cyberdeck e Gadgets de IA: da cultura hacker à transformação da educação
- A voz que acompanha: consciência assistida, Agents e o papel do professor na era da Inteligência Artificial
Diferenças estruturais entre a educação pública da Finlândia e do Brasil
A Finlândia possui cerca de 550 mil estudantes na educação básica. O Brasil possui mais de 47 milhões. O investimento anual por aluno é de cerca de US$ 12 mil na Finlândia e aproximadamente US$ 3,8 mil no Brasil.
As turmas finlandesas têm cerca de 20 alunos em média. No Brasil, frequentemente ultrapassam 30 alunos. A educação pública finlandesa é altamente homogênea em qualidade. No Brasil, há forte desigualdade entre redes e regiões.
Essas decisões ocorrem dentro de estruturas profundamente diferentes.
Para refletir: copiar decisões isoladas sem construir essas mesmas condições aproxima o Brasil do resultado finlandês — ou apenas de sua aparência?
A verdadeira lição: países que ensinam tecnologia constroem autonomia
Países com limitações estruturais transformaram suas economias integrando tecnologia à educação.
A Estônia levou computadores e internet a todas as escolas e hoje ensina programação desde cedo, criando empresas globais como Skype e Bolt.
A Índia integrou computação ao ensino técnico e superior e criou empresas como Infosys e Tata Consultancy Services, além de formar líderes que dirigem empresas globais como Google e Microsoft.
Israel integrou engenharia e programação desde a educação básica e possui uma das maiores densidades de startups do mundo. Portugal expandiu o acesso à computação nas escolas. O Vietnã integrou STEM ao currículo e tornou-se um polo tecnológico emergente.
Esses países não reduziram o ensino tecnológico. Ampliaram.
A Finlândia também seguiu esse caminho. Seu sucesso é resultado de valorização docente, consistência curricular e integração entre educação e desenvolvimento tecnológico.
Para refletir: se o objetivo é construir autonomia, faz sentido reduzir o ensino tecnológico — ou fortalecer a capacidade de produzi-lo?
Conclusão
Existe uma dimensão mais profunda nesse debate que raramente é explicitada: a persistência de uma lógica de metrópole e colônia no campo tecnológico. Países que produzem tecnologia estruturam seus sistemas educacionais para sustentar essa produção. Países que não produzem tendem a importar não apenas as ferramentas, mas também os limites de sua própria atuação dentro desse sistema.
A educação é o ponto onde essa dinâmica pode ser reproduzida ou rompida. Quando um país forma estudantes capazes de compreender e criar tecnologia, ele constrói autonomia. Quando enfraquece essa formação, consolida sua posição como dependente de infraestruturas, plataformas e soluções desenvolvidas fora de seu território.
O equilíbrio entre o analógico e o digital não é retrocesso — é maturidade pedagógica. Ler em papel, escrever à mão e desenvolver atenção profunda não exclui ensinar programação, pensamento computacional e cultura maker.
Sistemas educacionais fortes combinam concentração cognitiva com competência tecnológica. A questão não é escolher entre caderno ou código. É garantir que ambos sirvam a um projeto consistente de formação e soberania.
Sobre o autor:
-
Francisco Tupy
Doutor pela Universidade de São Paulo com ênfase em videogame
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Bett Brasil.
Compartilhe nas redes sociais:
Referências (ABNT):
DEALROOM. Finland tech ecosystem report 2023. Amsterdam: Dealroom, 2023. Disponível em: https://dealroom.co. Acesso em: 19 fev. 2026.
FINLAND. Ministry of Education and Culture. Restrictions on the use of mobile devices in comprehensive schools. Helsinki: Ministry of Education and Culture, 2024. Disponível em: https://okm.fi. Acesso em: 19 fev. 2026.
FINNISH NATIONAL AGENCY FOR EDUCATION. National core curriculum for basic education 2014. Helsinki: Finnish National Agency for Education, 2016. Disponível em: https://www.oph.fi. Acesso em: 19 fev. 2026.
INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA. Censo Escolar da Educação Básica 2023. Brasília: INEP, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/inep. Acesso em: 19 fev. 2026.
NOKIA CORPORATION. Annual Report 2023. Espoo: Nokia, 2024. Disponível em: https://www.nokia.com/about-us/investors/results-reports/. Acesso em: 19 fev. 2026.
OECD. Education at a Glance 2023. Paris: OECD Publishing, 2023. Disponível em: https://www.oecd.org. Acesso em: 19 fev. 2026.
STATISTICS FINLAND. Comprehensive school pupils statistics. Helsinki: Statistics Finland, 2023. Disponível em: https://www.stat.fi. Acesso em: 19 fev. 2026.
WORLD BANK. World Development Indicators. Washington, DC: World Bank, 2023. Disponível em: https://data.worldbank.org. Acesso em: 19 fev. 2026.
Categories
- Inovação
- Metodologias de Ensino

