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A narrativa distorcida sobre a tecnologia educacional na Finlândia — e como ela contamina o debate educacional no Brasil

por Francisco Tupy
A narrativa distorcida sobre a tecnologia educacional na Finlândia — e como ela contamina o debate educacional no Brasil
Foto: Freepik
Copiar decisões sem construir o sistema que as torna eficazes não aproxima o Brasil de melhores resultados. Apenas reforça a distância entre aparência e realidade

Sistemas educacionais maduros ajustam continuamente suas estratégias — inclusive no uso da tecnologia — para fortalecer a aprendizagem. No Brasil, porém, o exemplo finlandês vem sendo usado como justificativa para questionar o ensino tecnológico, seja por desconhecimento, má interpretação ou simplificação de um tema estrutural. Como essa crítica muitas vezes parte do próprio campo educacional, é necessário restabelecer os fatos.

O que a Finlândia realmente fez

A Finlândia não aboliu a tecnologia nas escolas. Em 2024, restringiu o uso irrestrito de celulares pessoais durante as aulas, permitindo seu uso apenas com finalidade pedagógica.

A medida buscou reduzir distrações e proteger o ambiente cognitivo de aprendizagem. Paralelamente, escolas que haviam migrado excessivamente para tablets e livros digitais passaram a reequilibrar suas práticas, reintroduzindo livros físicos e escrita manual após evidências de impacto negativo na concentração e compreensão leitora.

A tecnologia permanece obrigatória no currículo nacional. Desde 2016, programação, pensamento computacional e produção digital fazem parte da formação básica. Computadores, robótica e cultura maker continuam integrados ao ensino. A Finlândia não removeu a tecnologia da educação. Qualificou seu uso.

Para refletir: faz sentido supor que um país que ensina programação e competências digitais abandonaria a tecnologia — ou isso revela uma interpretação incorreta dos fatos?

Por que essa distorção prejudica o Brasil

A Finlândia construiu um ecossistema tecnológico altamente produtivo. A Nokia faturou €24,9 bilhões em 2023, operando redes em mais de 130 países. Empresas como Supercell e Rovio criaram produtos digitais consumidos globalmente. O país possui mais de 3.800 startups, com um ecossistema avaliado em cerca de €48 bilhões.

O Brasil possui entre 13 mil e 15 mil startups, grande parte focada no mercado interno, enquanto sua infraestrutura digital — sistemas operacionais, nuvem e plataformas — é majoritariamente fornecida por empresas estrangeiras.

A diferença é estrutural: a Finlândia forma capacidade tecnológica. O Brasil ainda depende majoritariamente dela.

Para refletir: usar o exemplo de um país que exporta tecnologia para questionar o ensino tecnológico ajuda o Brasil a produzir tecnologia — ou reforça sua dependência?

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Diferenças estruturais entre a educação pública da Finlândia e do Brasil

A Finlândia possui cerca de 550 mil estudantes na educação básica. O Brasil possui mais de 47 milhões. O investimento anual por aluno é de cerca de US$ 12 mil na Finlândia e aproximadamente US$ 3,8 mil no Brasil.

As turmas finlandesas têm cerca de 20 alunos em média. No Brasil, frequentemente ultrapassam 30 alunos. A educação pública finlandesa é altamente homogênea em qualidade. No Brasil, há forte desigualdade entre redes e regiões.

Essas decisões ocorrem dentro de estruturas profundamente diferentes.

Para refletir: copiar decisões isoladas sem construir essas mesmas condições aproxima o Brasil do resultado finlandês — ou apenas de sua aparência?

A verdadeira lição: países que ensinam tecnologia constroem autonomia

Países com limitações estruturais transformaram suas economias integrando tecnologia à educação.

A Estônia levou computadores e internet a todas as escolas e hoje ensina programação desde cedo, criando empresas globais como Skype e Bolt.

A Índia integrou computação ao ensino técnico e superior e criou empresas como Infosys e Tata Consultancy Services, além de formar líderes que dirigem empresas globais como Google e Microsoft.

Israel integrou engenharia e programação desde a educação básica e possui uma das maiores densidades de startups do mundo. Portugal expandiu o acesso à computação nas escolas. O Vietnã integrou STEM ao currículo e tornou-se um polo tecnológico emergente.

Esses países não reduziram o ensino tecnológico. Ampliaram.

A Finlândia também seguiu esse caminho. Seu sucesso é resultado de valorização docente, consistência curricular e integração entre educação e desenvolvimento tecnológico.

Para refletir: se o objetivo é construir autonomia, faz sentido reduzir o ensino tecnológico — ou fortalecer a capacidade de produzi-lo?

Conclusão

Existe uma dimensão mais profunda nesse debate que raramente é explicitada: a persistência de uma lógica de metrópole e colônia no campo tecnológico. Países que produzem tecnologia estruturam seus sistemas educacionais para sustentar essa produção. Países que não produzem tendem a importar não apenas as ferramentas, mas também os limites de sua própria atuação dentro desse sistema.

A educação é o ponto onde essa dinâmica pode ser reproduzida ou rompida. Quando um país forma estudantes capazes de compreender e criar tecnologia, ele constrói autonomia. Quando enfraquece essa formação, consolida sua posição como dependente de infraestruturas, plataformas e soluções desenvolvidas fora de seu território.

O equilíbrio entre o analógico e o digital não é retrocesso — é maturidade pedagógica. Ler em papel, escrever à mão e desenvolver atenção profunda não exclui ensinar programação, pensamento computacional e cultura maker.

Sistemas educacionais fortes combinam concentração cognitiva com competência tecnológica. A questão não é escolher entre caderno ou código. É garantir que ambos sirvam a um projeto consistente de formação e soberania.

Sobre o autor:


*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Bett Brasil.

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Referências (ABNT):

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