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O que 16 vozes revelam sobre transformar a educação no Brasil

por Guilherme Cintra
O que 16 vozes revelam sobre transformar a educação no Brasil
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
O sistema de tecnologia educacional brasileiro não está mais deslumbrado com soluções mágicas, e sim preocupado com soluções originais e resultados pragmáticos

Em meu último artigo, falei sobre o blog que mantenho, o “EdTech da semana”, que se propõe a apresentar uma análise de startups de tecnologia educacional, e destaquei os principais aprendizados que reuni a partir de análises de edtechs do Sul Global. Apesar de menos famosos, são polos de inovação e soluções para realidades complexas, como baixa digitalização, diversidade cultural e de contextos, além de um mercado interno limitado.

Para dar visibilidade às edtechs que atuam ativamente na transformação da realidade brasileira, um dos principais países quando olhamos para o Sul Global, entrevistei 16 convidados, entre empreendedores, pesquisadores, investidores e gestores públicos do ecossistema de tecnologia educacional. O objetivo foi entender os caminhos que estão sendo trilhados na interseção entre tecnologia, educação e a busca por melhores resultados.

Analisadas em conjunto, as conversas explicitam que o ecossistema de tecnologia educacional no Brasil passa por mudanças. O setor já superou a fase do entusiasmo ingênuo e entra agora em um momento de amadurecimento, mais consciente de seus limites e mais atento às condições reais das escolas. Esse cenário também abre espaço para incorporar aprendizados de outros contextos, com empreendedores de outros países, e com realidades marcadas por desafios estruturais ainda mais intensos.

Uma tecnologia que aparece de forma recorrente nas entrevistas é a Inteligência Artificial, mas não mais como uma solução mágica ou promessa grandiosa. Para o espanhol Alberto Arenaza, da Transcend Network, a maioria dos produtos de IA generativa segue "dependendo do estudante aprendendo sozinho", o que limita seu impacto real na aprendizagem.

Os usos considerados mais promissores são pragmáticos. Em vez de substituir professores ou reinventar completamente a sala de aula, a IA tem sido aplicada para resolver problemas concretos: automatizar documentos pedagógicos, acelerar devolutivas de avaliação ou simplificar tarefas administrativas. Rafael Anselmo, empreendedor da Vínculo, afirma que a tecnologia pode reduzir em até 73% o tempo dedicado à elaboração de Planos Educacionais Individualizados (instrumentos fundamentais para a inclusão de alunos com deficiência ou necessidades educacionais especiais). São aplicações que não ganham manchetes, mas liberam tempo, um recurso escasso na escola.

Américo Amorim, empreendedor e pesquisador da Escribo, apresentou a ideia do “teste dos 5 minutos”: se a professora não se convencer nesse intervalo inicial, o projeto é engavetado. Diante da sobrecarga que marca o cotidiano desses profissionais, é essencial que a tecnologia educacional não represente mais uma camada de trabalho.

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Swarna Surya, diretora de Tecnologia da Global School Leaders, traz que boa parte dos desafios de realização de uma boa implementação de tecnologia educacional é originada em empreendedores desenvolvendo soluções para comunidades escolares e não com elas. Sem incorporar suas vozes no design, perde-se informação fundamental para gerar valor para quem mais precisa.

Esse ponto ajuda a explicar outro aspecto recorrente nas conversas e que raramente aparece nos discursos mais glamourosos sobre startups: vender tecnologia para a educação é, antes de tudo, um processo profundamente humano.

Os empreendedores relataram que, ao entrar no setor, pretendiam escalar seus produtos quase como um serviço de streaming. A realidade, no entanto, é outra. Escolas, especialmente as públicas, operam com base em confiança e relacionamento construídos ao longo do tempo. As decisões pedagógicas são coletivas, os ciclos de compra são longos e a implementação exige diálogo constante com gestores e professores. Esse aprendizado aparece nos relatos de empreendedores ligados a iniciativas como Proesc ou EduqHub, que destacam o papel das redes locais e das relações institucionais para que uma solução educacional, de fato, ganhe escala.

Como cerca de 80% dos estudantes brasileiros estão na rede pública, qualquer transformação educacional precisa dialogar com essa realidade, caso contrário, seu alcance será limitado.

Marília Teófilo, da EduqHub, resume esse cenário ao afirmar que “empreender é uma maratona, não um sprint”. Apesar da burocracia, do retorno financeiro incerto e dos desafios estruturais imensos, quem atua com edtechs frequentemente dedica anos, ou até mesmo décadas, à construção de soluções educacionais consistentes.

Alguns exemplos concretos mostram como a inovação brasileira tende a ser menos espetacular no discurso e mais pragmática. A Mobile Brain, por exemplo, parte de pesquisas em neurociência para desenvolver uma solução baseada em contação de histórias, capaz de prever tanto dificuldades de alfabetização quanto sinais de sofrimento mental em crianças, uma interseção ainda pouco explorada entre saúde mental e aprendizagem.

Já a Proesc ilustra como a inovação também pode surgir fora dos grandes centros. A partir de sua atuação no Amapá, a iniciativa ajudou a impulsionar o ecossistema de inovação do estado, conhecido como Tucuju Valley, que já deu origem a cerca de 200 startups locais, evidenciando o potencial da tecnologia educacional como catalisadora de desenvolvimento regional.

Outras iniciativas revelam soluções igualmente originais ao enfrentar problemas concretos do cotidiano escolar. A SuperAutor aposta em um modelo em que o conteúdo educacional é criado pelos próprios estudantes, que passam a atuar como autores e se engajam de forma mais ativa na leitura e na escrita. Já a Akyou e a Vínculo desenvolvem ferramentas voltadas à inclusão escolar, inclusive utilizando inteligência artificial para reduzir de forma significativa o tempo necessário à produção de documentos pedagógicos adaptados para estudantes com deficiência.

O perfil do empreendedor que emerge é profundamente humano: pais de crianças com deficiência, professores inconformados, pesquisadores impacientes com teorias distantes das necessidades práticas do mercado ou da sociedade, mulheres enfrentando vieses estruturais.

O propósito pessoal é o combustível, a sustentabilidade do negócio, o veículo. E, sem ele, não há impacto duradouro. A história que estas 16 entrevistas contam não é a de um setor pronto, mas de um ecossistema em construção contínua, que aprende enquanto avança. Como destacam vários entrevistados, a disposição para revisar certezas e incorporar novos aprendizados talvez seja a habilidade mais decisiva. Tanto para quem empreende quanto para quem educa.

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*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Bett Brasil.

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