O que faz uma família escolher a sua escola?
A evasão escolar nas instituições privadas de educação básica não acontece de forma repentina. Segundo pesquisa conduzida pela plataforma Escolas Exponenciais no segundo semestre de 2025, a decisão de permanecer ou deixar uma escola é construída ao longo do tempo e passa por fatores que vão além da qualidade pedagógica.
Os resultados foram apresentados durante o Fórum de Gestores da Bett Brasil pelo diretor de Sucesso Escolar da Arco Educação, Lucas Faleiros.
O levantamento ouviu mais de 15.900 famílias em 20 estados e 97 cidades brasileiras e identificou que a maior parte delas não pretende trocar de instituição. De acordo com os dados, 78,6% estão decididas a permanecer na escola atual, enquanto 15,3% consideram a mudança, mas ainda não tomaram uma decisão. Apenas 3,5% afirmaram já estar decididas a mudar de escola e 2,6% precisarão sair porque a instituição não oferece a série seguinte.
Para Faleiros, o grupo de famílias indecisas merece atenção especial. “15,3% estão avaliando tirar o seu filho, mas ainda não se decidiram, o que é uma ótima notícia porque, mesmo com alguma insatisfação ou atrito, muitas vezes estão dispostos a ter o seu problema resolvido para que decidam ficar”, disse.
O executivo também destacou que o dado pode ser analisado sob outra perspectiva: a da captação de novos alunos. “O gestor está preocupado em perder os seus alunos, mas pode pensar do lado inverso: como captar os 15,3% de alunos de escolas que não estão fazendo algum serviço adequado”, provocou.
Por que as famílias saem?
A pesquisa identificou que os principais motivos para a saída das famílias são questões financeiras (32%), localização distante da residência ou do trabalho (27%), incompatibilidade de valores ou ideologias (24%), falta de comunicação e transparência (19%), pouca abertura para diálogo com gestores e coordenação (18%), pouco cuidado com o bem-estar emocional dos estudantes (17%)
E ainda: ausência de investimentos em melhorias e inovação (16%), ocorrência de bullying (15%), trocas frequentes de professores (14%) e falta de diferenciais pedagógicos (14%).
Para Faleiros, a maioria desses fatores está sob influência direta da gestão escolar. “Fora questões financeiras e de localização, em maior ou menor grau, são fatores que estão dentro do controle da escola”, observou.

Lucas Faleiros durante apresentação de estudo no Fórum de Gestores. Foto: Bett Brasil.
O diretor chamou atenção para situações em que problemas de comunicação podem ser interpretados pelas famílias como desalinhamento institucional. Segundo ele, episódios pontuais podem levar a decisões precipitadas quando não há diálogo claro e ágil por parte da escola.
“Acho que a palavra mágica aqui é comunicação”, afirmou. “Tem muita coisa que a gente vê acontecendo que é a escola ter uma boa prática, mas aconteceu um problema pontual. Ela acabou se perdendo e não corrigiu rapidamente por falta de comunicação ou demora na comunicação”.
O mesmo raciocínio, segundo ele, vale para casos de bullying ou para mudanças na equipe docente. “Toda escola, todo ano, em geral, troca uma parte da sua equipe de professores. Isso é natural. O importante é como comunicar e justificar essa ação de forma efetiva para a compreensão das famílias”, destaca.
Faleiros defendeu ainda que as instituições aprofundem a análise das razões que levam uma família a sair da escola.
“Um ponto que sugiro fortemente é que, quando um aluno sair da escola, não se faça apenas uma coleta de informação escrita com o motivo da saída. Que alguém da escola entreviste essa família para realmente entender o que de fato aconteceu”, disse. “A melhor forma de mitigar o risco de evasão é entender o que está acontecendo com os que estão saindo”.
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O que faz uma família permanecer?
Se os fatores que motivam a saída nem sempre são os mesmos que garantem a permanência, a pesquisa também identificou os principais elementos que fortalecem a fidelização.
Na pesquisa 37% apontaram a qualidade acadêmica como principal motivo para continuar na escola, seguidos por ambiente seguro e acolhedor (33%), alinhamento de ideologias (29%) e relacionamento próximo e participativo (27%).
“Performance atrai. Relacionamento sustenta”, resumiu Faleiros. Na avaliação do especialista, embora seja impossível eliminar completamente a evasão escolar, as instituições podem atuar diretamente sobre aspectos que fortalecem a confiança das famílias.
“É possível sim ter uma escola com maior qualidade pedagógica, porque isso está na mão da liderança. Da mesma forma, manter um ambiente seguro e acolhedor”, afirmou.
Ele ressaltou que a percepção de acolhimento é construída em detalhes do cotidiano escolar, desde a recepção dos estudantes até a relação estabelecida com os responsáveis. “O quanto a família entende que aquela escola está verdadeiramente preocupada com seu filho ou sua filha faz diferença. São sinais que, às vezes, parecem pequenos, mas influenciam a percepção dos pais.”
Sobre a qualidade acadêmica, Faleiros destacou que o fator decisivo não é a adoção constante de novidades, mas a consistência na entrega dos resultados educacionais.
“Uma escola que parece ter boa qualidade acadêmica é aquela que entrega consistentemente a formação dos alunos. A consistência e a disciplina passam a construir a percepção de confiança perante os pais. Essa percepção é o que fideliza as famílias”, concluiu.
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