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15 fev 2023

Tempos muito estranhos: avanços tecnológicos e conservadorismo social

Lucia Dellagnelo
Tempos muito estranhos: avanços tecnológicos e conservadorismo social
Estamos agora no momento de definir, de forma ética e democrática, as novas fronteiras do mundo impactado pela tecnologia


 

Escrevo este artigo de Ryiadh, capital da Arábia Saudita, onde participo do LEAP Tech Conference, evento com tecnologias de vanguarda que prometem um salto para mudar o mundo. O encontro conta com mais de 200 mil pessoas de 80 países e é um mix de palestras e demonstrações de inovações para cidades inteligentes, saúde, mobilidade, segurança e educação.

Consciente de que tecnologia e dados são o novo petróleo, a Arábia Saudita investe pesado na criação de infraestrutura e formação de pessoas para a revolução digital. A conectividade nas escolas está progredindo rapidamente e recentes mudanças curriculares incluíram competências digitais como prioridade no desenvolvimento de crianças e adolescentes.

Mas o evento expõe o grande paradoxo que estamos vivendo. 

As tecnologias mostradas pelas empresas confundem as fronteiras entre virtual e presencial e demonstram o poder da inteligência artificial na criação de robôs humanoides, que circulam pelo evento interagindo com os participantes. Os palestrantes mencionam o ChatGPT e agora o BARD, do Google, como a democratização da inteligência artificial para uso de toda a população. Centenas de startups fazem demonstração de inovações disruptivas para as quais buscam investimento.

No entanto, do lado de fora, o caos no trânsito, funcionários que não conseguem se comunicar com os estrangeiros e a dificuldade de acessar alimentação nos trazem de volta ao mundo real, marcado por extrema desigualdade social. Sem falar do estranhamento causado pelas burcas, que cobrem as mulheres deixando apenas os olhos de fora, limitando seus movimentos e seus direitos.

Que mundo é esse? Como fazer sentido dessa imensa disparidade entre vanguarda tecnológica e conservadorismo social? Penso que essa é a essência do momento civilizatório atual. Estamos no ponto de virada (tipping point) na decisão de quem e para quem as tecnologias gerarão benefícios reais.

No momento, está claro que há uma nova elite que compreende os princípios básicos das tecnologias e produz riquezas a partir delas, e uma grande massa que consome e gera dados que as alimenta. Há também uma grande concentração no acesso e usufruto das tecnologias em algumas regiões e por alguns grupos sociais do mundo. 

Para evitar aumentar a desigualdade social e econômica, precisamos democratizar o acesso à tecnologia e garantir a todos os cidadãos a oportunidade de desenvolver competências necessárias para seu uso produtivo, ético e responsável. Os investimentos em capital humano não estão sendo realizados na mesma velocidade e intensidade que os investimentos em novas tecnologias. Apenas 4 entre cada 10 escolas públicas no mundo têm acesso à internet.

Vem do livro “Tempos Muito Estranhos”, de Doris K. Goodwin, a inspiração para o título deste artigo. Os tempos que Goodwin se referia eram os da Segunda Guerra Mundial, que redefiniram fronteiras geográficas, econômicas e de direitos humanos. Estamos agora no momento de definir, de forma ética e democrática, as novas fronteiras do mundo impactado pela tecnologia.

 

Sobre a autora:


*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Bett Brasil.

 

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