Universidades passam a restringir celulares em sala de aula
O uso irrestrito de celulares em sala de aula começa a perder espaço também no ensino superior. No início do atual ano letivo, instituições tradicionais como Insper, Fundação Getulio Vargas (FGV) e ESPM anunciaram medidas para restringir o uso de aparelhos eletrônicos durante as aulas, seguindo a regra já adotada por escolas na educação básica.
Embora universidades tenham autonomia para definir suas próprias normas, a decisão reflete evidências crescentes de que ambientes livres de telas favorecem a aprendizagem.
Até recentemente, a maior parte das pesquisas sobre o tema se concentrava no ensino fundamental e médio. No entanto, estudos internacionais começam a indicar que os impactos positivos da restrição ao uso de celulares também se estendem às universidades.
Uma das pesquisas mais relevantes foi publicada em agosto do ano passado por Alp Sungu, da Universidade da Pensilvânia, Pradeep Choudhury, da Jawaharlal Nehru University, e Andreas Bjerre-Nielsen, da Universidade de Copenhagen.
O estudo acompanhou mais de 17 mil universitários em dez universidades da Índia. Metade dos estudantes frequentou salas de aula nas quais o uso de celulares foi proibido durante um semestre, enquanto a outra metade permaneceu em ambientes sem restrições.
O resultado mostrou que os ganhos de aprendizagem nas salas sem celulares foram “estatisticamente significativos” e comparáveis aos de outras intervenções pedagógicas consideradas bem-sucedidas.
Entre os principais achados, os pesquisadores observaram que os alunos com maiores dificuldades acadêmicas prévias foram os mais beneficiados pela medida. O impacto positivo também foi mais intenso entre estudantes do primeiro ano, possivelmente por ainda estarem em fase de formação de hábitos de estudo no ambiente universitário.
Observadores independentes que realizaram visitas surpresa às salas de aula registraram menos interrupções, conversas fora do tema e até redução no uso de celulares pelos próprios professores.
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No Brasil, essas evidências têm embasado mudanças práticas no cotidiano universitário. No Insper, em São Paulo, os estudantes foram informados sobre as novas diretrizes já no primeiro dia de aula. Segundo a diretora de Graduação da instituição, Priscila Claro, a decisão envolve “questões intencionais”.
O objetivo é aumentar os níveis de concentração durante as aulas e recuperar o aspecto social do ambiente acadêmico, frequentemente prejudicado pelo uso constante de telas.
Pelas regras adotadas, celulares, tablets e laptops só podem ser utilizados quando houver relação direta com o conteúdo pedagógico trabalhado naquele momento. Fora dessas situações, os dispositivos devem permanecer guardados.
Para muitos calouros, a adaptação tem sido natural. “A gente já não podia usar. Minha escola já era muito rígida”, relatou um estudante do primeiro ano, em referência à Lei Federal que, desde janeiro de 2025, restringe o uso de celulares em todas as etapas da educação básica.
Outras instituições também avançam nesse sentido. A Fundação Getúlio Vargas (FGV) prevê a limitação do uso de celulares em sala de aula no primeiro semestre de 2026. Já a ESPM orienta que os aparelhos permaneçam no modo silencioso e guardados em bolsas ou mochilas.
Além disso, a faculdade tem incentivado o retorno das anotações em cadernos físicos, argumentando que escrever à mão estimula o cérebro e contribui para a fixação do aprendizado. A instituição ressalta que a iniciativa não é uma “simples proibição”, mas uma orientação baseada em boas práticas pedagógicas.
Apesar dos argumentos educacionais, a mudança gera debate entre os universitários, especialmente entre os veteranos. Muitos defendem que o ensino superior deveria garantir maior autonomia sobre o comportamento e as ferramentas de estudo.
“Esperávamos mais autonomia por estarmos na faculdade”, comentou uma aluna da ESPM. Ainda assim, o sentimento de resignação também aparece: “Se é uma regra, terá que ser cumprida, não tem jeito”, afirmou outra estudante.
Como a legislação federal não se aplica às universidades, cabe a cada instituição decidir como adotará restrições ao uso de telas.
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