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03 abr 2025

Adolescência: um convite à reflexão

por Sandra Andrade Scapin
Adolescência: um convite à reflexão
Ator Owen Cooper em "Adolescência". Foto: Divulgação/Netflix
A série da Netflix nos incomoda, nos impacta e nos comove. Quais reflexões ela deve trazer para a família e para a escola?

Todo investimento que fazemos no desenvolvimento das relações interpessoais, como educadores, seja em casa ou na escola, tem por grande objetivo propiciar o desenvolvimento de relações saudáveis na vida.

Esta boa convivência depende de valores compactuados pelas diferentes gerações, tais como: Respeito, Justiça, Equidade, Empatia, Ética, Solidariedade, Acolhimento à Diversidade, Democracia e, por isso, pressupõe intencionalidade para promover saúde mental de toda comunidade. E como isso é possível?

Para começar, por meio de uma educação afetiva em ambientes democráticos e educativos para a construção de referências positivas que inspirem e sirvam de modelo para criar nos adolescentes o sentimento de pertencimento - responsabilidade – segurança.

No entanto, sabemos que, hoje em dia, nada disso é fácil! Nós adultos, pais, mães e professores, temos sido testados diariamente para melhor compreender nossos filhos e alunos. Os espaços e instituições que deveriam ser referência de formação também se sentem “perdidos”, muitas vezes, pressionados pelos diferentes perfis de famílias e têm dificuldade, em algumas realidades, para se atualizar diante das diferentes demandas dos nossos tempos.

E, é por isso que, como educadora, sinto-me mobilizada a refletir sobre isso hoje e, em especial, em decorrência dos inúmeros comentários que têm surgido a partir da série Adolescência, da Netflix, que já tem a audiência garantida. A série de quatro episódios aborda as consequências do esfaqueamento de uma adolescente, tendo, um garoto de 13 anos, colega de escola da vítima, detido como suspeito pelo assassinato.

De início, a série já traz um ponto crucial a ser refletido: o isolamento do adolescente e o desconhecimento da família de quem realmente é o filho. Depois, vemos a dor dos educadores escolares que não conhecem e nem conseguem exercer sua autoridade na escola, além de pouco conhecerem seus alunos, demonstrando certa impotência da escola para diferentes assuntos.

Outra dor é a culpa que vitimiza a família e, também o desconhecimento da crueldade do bullying tanto para a vítima como para o agressor. Enfim, são várias as dores a serem olhadas!

Começo, então, a reflexão pelo olhar para a escola. Vamos refletir inicialmente sobre a escola que a série mostra. Causou-me incômodo que, em momento algum, aparece a escola desenvolvendo um trabalho no pós-assassinato, aparece sim uma escola como um “espaço de caos”, traduzida por um dos personagens – no caso o policial – como uma “jaula de contenção”.

A escola apresentada revela um cenário de desrespeito entre pares e intergeracional, educadores que só conseguem pedir algum respeito por meio do castigo, da ameaça e ainda um educador que confessa não conhecer bem o aluno alvo da visita policial, só suas notas.

Este espaço retratado na série, infelizmente, caracteriza um abismo intergeracional entre educadores e alunos, onde os códigos de comunicação não são conhecidos por todos e onde não existe espaço de escuta e diálogo, nem preventivo e nem afetivo.

Pois bem, este cenário mostrou uma escola perdida frente às novas demandas, educadores, altamente exigidos, a exercerem diferentes papéis e sem muitas condições para tal. Por outro lado, num dos diálogos entre os policiais, a policial que disse ter vivido num espaço assim diz que foi salva por uma professora, o que nos coloca a refletir sobre o quanto o educador é importante.

E no nosso contexto, como estão nossas escolas? Será que é este o cenário das nossas escolas? Há escolas e escolas. Algumas bem-preparadas para os novos desafios e outras nem tanto!

Sabemos que em alguns contextos escolares há abismos geracionais, falta de formação efetiva dos educadores para atender as várias demandas, há exigência excessiva de educadores assumirem muitos papéis que são das famílias, há poucos projetos efetivos de formação para um projeto de vida e há muita pouca escuta e diálogo para tirar os adolescentes do isolamento e das garras do perigo das mídias sociais.

Pensando neste olhar para esta escola que precisa ser também reorganizada, precisamos considerar que necessitamos nos ajudar numa rede para transformar a escola, ajudar os pares educadores e fortalecer as relações saudáveis que inspirem para a vida.

Série-Adolêscencia

Série 'Adolescência' será transmitida em escolas britânicas. Foto: Divulgação/Netflix.

Como podemos começar e evitar que a escola seja também espaço de sofrimento? Primeiramente, é preciso ter uma clareza de qual perfil de aluno queremos formar e deixar claro isso para as famílias para que haja coesão entre as orientações familiares e escolares.

É necessário refletir sobre a pressão social por resultados, o estímulo a agendas lotadas, o foco no acadêmico e a desconsideração ao socioemocional, evitando-se assim tornar a escola apenas espaço de competição e violência. Qual é o perfil de escola que se adequa ao meu filho real? Como escolher uma escola que valoriza que cada um dê o seu melhor e cresça valorizando o esforço?

Para além deste olhar, é preciso favorecer o desenvolvimento de Projeto de Vida para os alunos a partir do conhecimento das características da faixa etária, da escuta ativa, do diálogo que orienta e estreita laços.

A partir do conhecimento do PPP da escola, o educador precisa ser modelo, estabelecendo uma educação com limites claros, valorização da ética, da espiritualidade e o exercício da responsabilidade.

Compete ainda ao educador em todas as instâncias, seja ele inspetor, professor ou gestor, a partir de combinados definidos, valorizar os elogios genuínos no coletivo e, ao longo do processo e garantir as correções naturais, no individual.

É necessário investir na segurança emocional: entender os sinais do silêncio e do corpo; não negligenciar emoções; ajudar a identificar e nomear as emoções; importante criar espaços de comunicação, olho no olho com escuta ativa; sem julgamento, sem comparação e criar momentos de interações com atividades conjuntas entre pares, valorizando cada vez mais o respeito à diversidade.

Fundamental rebater qualquer relação de violência, indispensável criar vínculos saudáveis: professor, inspetor, gestor devem ser presença no lanche/estudo do meio, -dialogar, -acolher dor e sofrimento, -lidar com as dificuldades a partir do Autoconhecimento, do Cuidado e da Amorosidade.

Assim, criamos um ambiente coletivo, na escola, de acolhimento, observação e responsabilidade, onde existe firmeza e gentileza, onde há coragem ao saber dizer “Não”, onde há força moral para estabelecer limites e, assim, ajudar na construção do projeto de vida.

Se necessário, a escola, como instituição, precisa investir na formação do educador para que ele seja potencializado a responder a estas demandas, dando também atenção ao Autoconhecimento e Autocuidado do professor!

A escola em formação constante é um grande desafio, mas educadores em conjunto e alinhados aos mesmos valores podem fazer muito pelas atuais gerações!

Agora, vamos olhar para a família! A série começa com uma profunda sensação de impacto pelo que está acontecendo. Apesar da inicial clareza de papéis dos pais, a agressividade da intervenção policial deixa todos atônitos e, na passagem do tempo, algumas características de cada um são reveladas. É na revelação da fala de Jamie para a psicóloga que muitos papéis se definem.

Com o passar do tempo da trama, a família, como ela mesma diz “tenta sobreviver”, apesar de exposta e estigmatizada, resolvendo o problema do dia, a partir da orientação terapêutica. A família demonstra força para tentar levar a vida e coragem na busca de apoio terapêutico.

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A cena em que o casal conversa é fundamental: será que somos totalmente culpados pelos erros de nossos filhos? Não totalmente! Há influência genética, do ambiente e, na adolescência, os grupos sociais são os mais importantes.

Não nos esqueçamos ainda das redes sociais e das inúmeras plataformas perigosas que expõem nossos filhos a riscos muitas vezes inimagináveis. Os filhos no quarto não estão seguros! Precisamos entender e olhar para isso, apesar de sabermos que não podemos controlar os filhos o tempo todo.

Mas, nem por isso, temos que nos afastar, especialmente nesta fase em que os adolescentes ainda não estão prontos, inclusive fisicamente porque o córtex pré-frontal está em formação e, por isso, esse adolescente não está apto para as melhores escolhas e agem por impulso e influência externa.

Desde a infância, a família precisa ser um modelo de valores e princípios para a vida, ser presença, acolher, oferecer situações que permitam independência com riscos calculados, oferecer experiências de vida construtivas, definir limites e ensinar o filho a lidar com frustrações, com o Não.

Aqui não cabe a apologia à culpa, pois a família parece ser “suficientemente boa”, mas é preciso não perder de vista mais diálogo, vínculo e conexão, é preciso conhecer os amigos dos filhos e suas respectivas famílias, é necessário falar sobre os mais diferentes assuntos: sexualidade, violência, drogas, bullying... Na adolescência não podemos nos afastar, precisamos fortalecer o monitoramento por meio de combinados. É preciso ter coragem de educar para a vida! Isso é cuidar, não basta prover ou trocar atenção por bens materiais!

E agora vamos falar do adolescente, a razão pela qual estamos discutindo tantas coisas.

Precisamos entender o quanto esta é uma fase difícil, uma fase de mescla de sentimentos, impulsos decorrentes da não formação completa do córtex pré-frontal e fase de  instabilidades e que, atualmente, se caracterizam por um abismo entre adolescentes e seus pais que, como eu dizia na época da pandemia, foi o tempo em que alguns pais passaram a conhecer seus filhos, porque antes terceirizavam para babás, escolas, avós...

Nesta fase, o isolamento tem imperado porque estão dentro de casa e sozinhos em seus mundos, comparando-se com outros pares, porque a necessidade de pertencimento é enorme. Enfim, este indivíduo passa por um turbilhão de conflitos, porque está em fase de transformação e é mobilizado pela força do grupo social, das mídias sociais. Pode-se viver muitas dores no meio de tudo isso!

O que fazer, como atuar? Ser um adulto que olha, que observa, que serve de referência no ser, fazer e falar, que monitora. Ser inspiração! O adolescente precisa ser escutado, questionado, precisa ser chamado a negociar limites e consequências das ações desde cedo.

Ele precisa ter pais presentes e educadores escolares atentos, todos sensíveis às características e dores do outro, que se importam com seu desenvolvimento. O adolescente precisa ser trabalhado para assumir suas responsabilidades que começam com os estudos e tarefas domésticas e deve ser incentivado a valorizar seus talentos e compreender e superar suas dificuldades, tudo isso faz parte do autoconhecimento.

Nem sempre conseguimos isso na escola e na família, por vezes precisamos de apoio multidisciplinar, mas não podemos negligenciar estas necessidades. Que árdua é nossa tarefa! Que bom que uma ficção desperta novos olhares!

Que nós possamos entender, cada vez mais, que uma família presente e reflexiva é fundamental. Além disso é imprescindível uma escola aprendente que se coloque como parceira da família para que juntas possam favorecer uma caminhada mais saudável para os diferentes alunos, nas diferentes fases do desenvolvimento.

Agora está conosco: o que faremos com tudo isso que a série nos despertou? Como vamos atuar como pais, mães, professores e gestores de cada adolescente que passar por nós e que precisa de nós?

Sobre a autora:


*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Bett Brasil.

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