Educação profissional exige formação cidadã para enfrentar desigualdades históricas
A discussão sobre o papel da educação profissional no Brasil passa necessariamente pela história do país e pelas desigualdades que marcaram a formação da sociedade brasileira. Essa foi uma das reflexões apresentadas pela superintendente de Operações do Senac São Paulo, Lucila Sciotti, ao abordar a relação entre a educação profissional e a formação cidadã.
Segundo a especialista, a dificuldade de acesso à educação ao longo da história ajudou a consolidar uma estrutura social que ainda produz impactos na forma como o trabalho e a qualificação profissional são compreendidos. Para ela, a educação profissional não pode ser analisada apenas sob a perspectiva da empregabilidade, mas também como instrumento de desenvolvimento humano e fortalecimento da cidadania.
“Vivemos em um país marcado pela dificuldade ao acesso à educação”, afirmou Lucila ao contextualizar o processo histórico brasileiro. Em sua análise, a herança de uma sociedade construída sobre profundas desigualdades contribuiu para a valorização distinta de determinadas formas de trabalho e para a segmentação das oportunidades educacionais.
A especialista destacou que a ampliação do acesso à educação ocorreu de forma gradual ao longo das últimas décadas. Ela lembrou que apenas em 1961 estudantes do ensino técnico passaram a ter a possibilidade de complementar sua formação no ensino superior. A educação foi reconhecida como direito de todos pela Constituição Federal de 1988, enquanto a garantia de vaga escolar para toda a população avançou a partir de 1996. Já a obrigatoriedade da presença de crianças e adolescentes até 14 anos na escola foi ampliada somente em 2012.

Lucila Sciotti abordou o cenário atual da educação superior no Brasil. Foto: Bett Brasil.
Nesse contexto, Lucila argumenta que a educação profissional ainda carrega reflexos das diferenças sociais historicamente construídas. “Hoje, a educação profissional é um reflexo da diferenciação de classes que nasce no histórico do trabalho no país. Cabe a nós, agentes educacionais, criarmos um ambiente de educação profissional que tenha um olhar abrangente e generoso na formação do cidadão”, pondera.
Formação que vai além da técnica
A especialista observa que a educação profissional atende públicos diversos, desde jovens em busca da primeira oportunidade de carreira até profissionais que procuram especialização ou recolocação no mercado de trabalho.
Essa diversidade, segundo ela, exige abordagens que ultrapassem o desenvolvimento de competências técnicas. O reconhecimento da história de vida dos estudantes e a compreensão de suas necessidades tornam-se elementos centrais para uma formação mais ampla.
Para Lucila, o ensino profissional tem potencial para contribuir não apenas com a inserção no mercado de trabalho, mas também com a construção de valores éticos e de uma participação mais consciente na sociedade.
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O trabalho como princípio educativo
Outro ponto destacado pela superintendente é a necessidade de olhar para a formação ao longo de toda a vida produtiva. No Brasil, a população considerada economicamente ativa compreende pessoas entre 15 e 64 anos, grupo que reúne cerca de 140 milhões de indivíduos.
Dentro desse universo, os desafios educacionais permanecem significativos. Lucila ressaltou que 29% dessa população é considerada analfabeta funcional e que 7% é analfabeta. “Muitas dessas pessoas chegam aos cursos de educação profissional com lacunas em sua formação básica, ampliando a responsabilidade das instituições de ensino”, disse.
Para ela, a preparação para o trabalho deve estar associada à compreensão do papel que cada indivíduo desempenha na sociedade. “O entendimento desse cidadão como agente de uma sociedade em desenvolvimento, sustentada por princípios éticos, contribui para uma visão mais ampla do trabalho. Nesse contexto, o papel da educação profissional é criar ambientes que, além da capacitação técnica, possibilitem ao estudante uma formação abrangente, voltada também para a construção do bem coletivo”, conclui.
As reflexões da superintendente de Operações do Senac São Paulo, Lucila Sciotti, foram apresentadas durante o Fórum Ahead CIEE, realizado na Bett Brasil 2026.
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